PROFISSÃO DESVALORIZADA ''Professor precisa ter condição de existência''
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Carga horária excessiva, salário defasado, desrespeito. A realidade do professor brasileiro representa um desestímulo para que jovens escolham a profissão. A consequência mais visível é a baixa qualidade do ensino público.
Para a doutora em educação e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Adreana Dulcina Platt, o panorama atual do ensino no País é consequência da falta de uma política pública educacional. ''Isso vai continuar acontecendo enquanto a educação não estiver na agenda de prioridades'', ressalta.
Como a senhora avalia o ensino público brasileiro?
O que marca a escola pública hoje é a tentativa de que todo brasileiro tenha acesso à educação. Mas a permanência é a grande dificuldade. Existem elementos da escola pública que não podem ser separados. Não há como se falar de acesso sem falar da formação dos professores, dos recursos materiais, da ampliação das redes de ensino, do número de alunos por sala, do plano de carreira. Todas essas relações são extremamente problemáticas. Não existe uma concomitância de olhares sobre a escola pública. Além disso, tem a questão do salário. O professor precisa ter condição de existência.
E o salário do professor não oferece condição de existência?
Isso é clássico na escola pública. Os professores sentem-se desestimulados a permanecer na rede. Um dos grandes problemas é a procura por professores de determinadas áreas. Não existe mais o desejo porque as pessoas não conseguem prever uma carreira digna e condições de ampliar suas perspectivas.
O governo investe o suficiente na escola pública?
Houve grande promoção de acesso, mas os índices voltados à educação são extremamente incipientes. Há carência de política pública educacional. Isso vai continuar acontecendo enquanto a educação não estiver na agenda de prioridades. Mas, para isso, tem que haver amplos recursos. Talvez nós sejamos um dos países da América Latina que menos investem em educação. Existem problemas estruturais que acabam tendo prioridade e o aspecto da política representativa é muito da barganha. A área educacional tem pouco poder de barganha.
Qual a sua opinião sobre o Programa Bolsa Escola?
Como qualquer programa ele é paliativo e a ideia é que ele venha a se extinguir. Eu sou contra toda medida paliativa. O governo tem que trabalhar com o aspecto estrutural. Enquanto a população tiver que se submeter aos programas de bolsas é sinal de que existe um problema muito sério nesse país. O estado tem que garantir os princípios básicos de existência da nação que é composta por pobres e ricos.
A senhora acha que a implantação do ensino integral é uma boa alternativa?
Temos que pensar no processo crítico disso. É preciso entender o que há por trás dessa proposta. É melhor que os jovens fiquem em espaços definidos onde eles possam ser vigiados. O governo está tentando consertar equívocos. Mas para ter um projeto de escola integral é preciso haver professores com formação, estrutura, recursos e uma família preparada para receber esse aluno. Os pais vão precisar estar mais vigilantes e dispostos a ajudar nas atividades propostas.
O que a comunidade pode fazer para colaborar com a melhoria da qualidade do ensino?
A mobilidade da sociedade está perdida e isso é um erro grave. É uma nação débil e que não luta por seus direitos. O Brasil é um país indignado, mas isso não aparece.
O senador Cristovam Buarque propôs que os filhos de políticos sejam obrigados a estudar em escola pública. O projeto, que encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, foi bastante criticado por parlamentares, que alegam inconstitucionalidade. A senhora acha que pode ser uma saída para melhorar o ensino?
Essa proposta é inconstitucional porque os cidadãos têm liberdade. O Brasil prevê o ensino público e o privado. Não é como na França onde o ensino é público. No entanto, essa ideia faz sentido enquanto princípio. Existe justiça nela. Se isso acontecesse haveria uma resposta social.
Assim, para a saúde pública melhorar, os políticos e seus familiares deveriam ser obrigados a utilizar o Sistema Único de Saúde (SUS)...
Se o SUS fosse obrigatório a juízes e presidentes eu duvido que a saúde pública estivesse desse jeito.(Leia mais no caderno Economia)


