Desperdiçar se aprende na escola. Acreditem, ainda hoje os professores mandam encapar caderno; a primeira página (frente e verso) não pode ser utilizada, fica em branco, como um anteparo não se sabe do quê; o caderno já chega da fábrica com aquela margem demarcada, de 2 centímetros, onde nada pode ser escrito; lápis de cor tem que ser longo; o lápis comum também não pode mais ser usado se começa a ficar curto, embora ainda aproveitável; algumas escolas pedem que o maço de papel sulfite seja de 200 a até 500 folhas, quando um de 100 basta, e ademais é leve de carregar.
Os alunos chegam em casa e contam que a professora joga o giz no lixo quando começa a passar da metade. (No recreio as crianças recolhem os pedaços e depois, na classe, ficam brincando de jogá-los uns nas cabeças dos outros - esta ao menos uma prática divertida e salutar que estimula o companheirismo e a fraternidade).
Os alunos dizem que a melhor coisa da escola ainda é o recreio. Não porque eles só gostem de brincar, pois sabe-se que também gostam de estudar se lhes ensinam coisas interessantes e realmente úteis para o dia-a-dia de sua vida presente e futura. Criança é perspicaz, mais do que se imagina.
Por que a exigência de encapar caderno se ele já vem encapado? Deve ser um capricho do professor, para que o pai do aluno gaste mais, já que somos um país de famílias muito abastadas... O artista gráfico cria uma bela capa, com ilustração muitas vezes educativa, aí o professor aniquila sua obra, ordenando que ela seja encoberta, como algo pecaminoso que não pode ser visto. Os alunos dizem não entender porque, eis que o encapamento não protege nada de coisa alguma, nem embeleza, nem estimula as artes manuais. Eles ironizam, nos seus sábios gracejos, que o professor deve ser sócio da papelaria.
Mal sabe o mestre-sala, que está ensinando à criança o desperdício, e que essa deformação poderá acompanhá-la em toda a idade adulta. Aquela margem em branco corresponde a 1 página em cada 10. Jogada fora. Para que a criança aprenda mais um modo de desperdiçar e a não valorizar o dinheiro do pai.
Se um maço de papel sulfite de 100 páginas é suficiente, por que o professor tem que ir mais fundo no bolso do pai do aluno? E por que tem que ser papel sulfite, tão caro? Dizem que é para as provas. Papel sulfite só devia ser usado para mandar carta ao presidente da República e não para prova escolar, num país pobre como o nosso! Como não mandamos carta ao presidente, e mesmo que a mandássemos ele não leria, e se lesse não lhe daria importância alguma, então vamos usar esse papel comunzinho, como o papel-jornal, que é barato.
A cada início de ano escolar os pais recebem aquela lista enorme do material a comprar. Vi, dias atrás, uma mãe chorando dentro de uma papelaria, angustiada porque faltava-lhe dinheiro para tanta bugiganga. Material escolar deveria ser um caderno, um lápis e um livro (fino e leve) de cada matéria do dia.
Voltando ao desperdício: perguntei aos meus quatro netos, todos ao redor dos 10 anos, se os professores alguma vez lhes ensinaram a não desperdiçar espaços nos cadernos, a zelar pelo bom emprego do material escolar, que custa caro e reflete no bolso do pai, e eles responderam, em sua inocente franqueza: ‘‘Eles nunca falaram dessas coisas’’.
Aí essas crianças crescem e se transformam em vereadores, prefeitos, governadores, deputados, ministros que desperdiçam o dinheiro do povo; crescem empresários desperdiçadores, ensinados que foram a não valorizar o custo do dinheiro; crescem cidadãos que desprezam e destroem os bens que têm, que deixam no prato metade da comida, à mesa, enquanto tantos passam fome; transformam-se em pais que de sua vez passam aos filhos idéias de desperdício; em novos professores que ensinarão como lhes ensinaram...
Uma nação é o reflexo dos educadores que teve.
E o livro escolar? Geralmente o do ano passado não serve para o irmão mais novo. No passado, todos os que se sucediam na escola aprendiam no mesmo livro, e aprendiam melhor. Hoje, se a criança aprende mais, e mais velozmente (não significando, necessariamente, que esteja aprendendo o melhor), não é por mérito da escola mas da televisão e da Internet.
É também muito algoz o sistema, ao exigir da criança que levante às 7 da manhã e fique até o meio-dia na escola. Com uma metodologia simples, mais proveitosa, se poderia ensinar tudo em duas horas diárias e avançar dois anos em um, permitindo que a criança-adolescente chegasse mais cedo ao ensino profissionalizante ou ao ensino superior. Consequentemente, ao mercado de trabalho. Hoje tudo caminha veloz. É um crime contra o estudante exigir que ele seja obrigado a frequentar quase 20 anos de banco escolar, desde o pré-primário, o 2º grau, passando por esse inexplicável vestibular, depois o curso superior, não se falando de pós-graduação.
E a tortura que os professores impingem à criança, exigindo que carregue uma mochila que ela não suporta e que danifica sua coluna dorsal? Qual é a autoridade com coragem suficiente para colocar um freio nessa violência oficializada contra a criança e o adolescente?
Alguém dirá: ‘‘Sou professor, não sou assim, meus colegas não são assim e em minha escola não é assim’’. Deve ser verdade. A estes, parabéns!
E sobre a qualidade e a utilidade do que se ensina nas escolas? Dia chegará em que o aluno ditará ao professor o que quer aprender e o que não quer que lhe seja ensinado. E aí florescerá uma civilização sábia e liberta.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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