Professores com os pés descalços na soleira dos novos tempos
O bom mestre persiste na tarefa de apresentar a bússola que permitirá aos seus discípulos navegarem nos mares de incertezas, de riscos e perigos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de junho de 2019
O bom mestre persiste na tarefa de apresentar a bússola que permitirá aos seus discípulos navegarem nos mares de incertezas, de riscos e perigos
Espaço Aberto 
A modernidade colocou o humano como centro de todas as coisas e o individualismo crescente levou ao desencantamento da vida em sua plenitude. Ao adentrarmos numa racionalidade técnica, nos tornamos impermeáveis a qualquer manifestação do espírito, o que significa que perdemos a capacidade de transcendência, necessária para reconhecer o outro como semelhante.
A ausência de empatia se disseminou pela sociedade, tendo a sua maior expressão nos “guardiões” de nossa pátria, os quais apostam na desinteligência popular quando deveriam investir na formação do capital humano em prol do fortalecimento da nação. No âmbito da educação, setor fundamental para alavancar o desenvolvimento do País, os últimos retrocessos foram ativados pelo congelamento de investimentos públicos por até 20 anos (PEC 241/governo Temer), somados aos atuais cortes de verbas destinadas à manutenção das universidades e da educação básica, agravados pela perseguição e desvalorização de professores, roubando-lhes a autoestima e as condições materiais de sua profissionalização.
Na contramão da promessa do atual secretário de Educação do Paraná, de ampliação e fortalecimento da rede de ensino e valorização dos professores, presenciamos o enrijecimento de ações governamentais que levam a defasagens, sucateamentos, além de perdas salariais agonizantes. Ora, com esse desmonte na educação, como as escolas e as universidades poderão vir a ser um lugar seguro para que as capacidades individuais e sociais se desenvolvam e contribuam com a formação de um país justo e igualitário?
Os professores têm a missão de promover uma relação profícua entre gerações por meio da construção de conhecimentos balizados pelo arcabouço teórico-prático acumulado pela humanidade, pelo qual o ser humano se torna, no mínimo, menos ignorante, condição para a superação da ideologia do vira-lata brasileiro e para a conquista de uma nação livre.
Diante dessa crise sem precedentes, que nos afasta cada vez mais de um futuro promissor que queremos para todos, vejo a figura do professor se esvaziando, abandonado à própria sorte, vislumbrando seu trabalho formativo cerceado e limitado, porém, com os pés descalços na soleira dos novos tempos, com olhos fitos e percepção clara de seu devir.
O bom mestre não tem tempo para pessimismos. Resiste e persiste na tarefa de apresentar a bússola que permitirá aos seus discípulos navegarem nos mares de incertezas, de riscos e perigos. Em apoio à educação e apostando em uma geração capaz de repensar um projeto para a nação, fica o convite a nos juntarmos aos professores e nos descalçarmos dos sapatos sujos do obscurantismo pelo qual se fundou um abismo separando o fenômeno humano de sua própria humanidade.
JEANI DELGADO MOURA é docente do Departamento de Geociências da UEL


