Ausente de Curitiba, não soube de imediato do falecimento do professor David Carneiro. Tive a honra e a satisfação de tê-lo como colega de Conselho Estadual de Educação do Paraná. Fomos nomeados pelo mesmo Decreto nº 210/87, do então governador Álvaro Dias que, por sinal, aceitou a indicação feita pelo secretário de Estado de Educação. Na verdade, o governador não conhecia o professor David Carneiro. Buscava, para aquela nomeação, alguém oriundo da Universidade Estadual de Maringá, como se havia tornado tradição. Mas confiou na palavra dos que o apontavam como homem de cultura, seriedade e compromisso com a educação. E jamais se arrependeu.
Fui conhecer o professor David na vivência do Conselho Estadual de Educação. Ligado às Ciências Exatas, notabilizou-se por seu vasto conhecimento humanístico. Percorria com facilidade e, principalmente, com gosto, os caminhos da filosofia. Positivista convicto, buscava sempre raciocinar com clareza e objetividade. Suas intervenções, fossem na Plenária, fossem na Câmara de Ensino Superior, eram sempre estimulantes, inteligentes e, principalmente, obrigavam à reflexão.
Profundamente ligado ao ensino superior, sua contribuição nesta área está longe de ser devidamente reconhecida. Estudou metodicamente as questões envolvendo o financiamento do ensino, o ingresso na Universidade e suas relações com a distribuição de renda e os problemas gerais que afetavam a expansão e a modernização do ensino superior. Desde o início, na Câmara de Ensino Superior, passou a dedicar-se à aplicação de método estatístico na análise dos relatórios enviados pelas Instituições de Ensino Superior. Por força da lei, as IES estaduais e municipais deviam enviar um relatório anual das atividades realizadas e um relatório de Exames Vestibulares, que eram apreciados pelos conselheiros.
A norma era que essa análise fosse muito superficial, mesmo porque os relatórios não continham dados relevantes. O fato é que o conselheiro David Carneiro, pela primeira vez, passou a fazer o estudo comparativo dos diversos relatórios, anotando suas lacunas e tecendo elaborados comentários cobre o que continham. A apreciação deixou de ser um ato meramente burocrático e formal e passou a ser cuidadosa análise quantitativa e qualitativa dos dados apresentados, de tal forma que os pareceres assinados por ele são, ainda agora, uma das melhores fontes para análise da realidade do ensino superior público do Paraná.
Ademais, apesar de grande defensor da iniciativa privada, jamais deixou de reconhecer a importância do ensino público e de assinalar a necessidade da presença do Estado na garantia da dignidade da vida e do cidadão. Por isto, nunca alguém pôde pensar sequer em rotulá-lo de ‘‘neoliberal’’. Sua inteligência e seu amor ao estudo conduziam sua análise pela trilha do liberalismo clássico, mas com notável abertura ao social e, por consequência, às argumentações mais à esquerda.
Mas sempre o que mais me impressionou no conselheiro David foi sua capacidade de acolher a opinião divergente. Homem de opiniões firmadas, de conceitos claros, discutia apaixonadamente. Muitas vezes divergimos em longas e vibrantes discussões, em Câmara e na Plenária, o mesmo ocorrendo com outros conselheiros. Mas não era um homem cego e surdo à argumentação. Com tranquilidade cedia à argumentação. Com tranquilidade cedia à lógica, mudando sua opinião, se necessário. Foi essa época de grandes e memoráveis debates nos quais de discutia a Educação sob todos os aspectos, do econômico e filosófico, do político ao ideológico. Se, porventura, reconhecia que deveria ceder no voto, quase nunca deixou de explicar a sua posição através de elaboradas ‘‘declarações de voto’’. Era, enfim, alguém que havia assumido, com seriedade e virtude (no sentido originário de ‘‘força interior’’), o compromisso como conselheiro da Educação do Paraná. Jamais se permitiu uma leviandade, uma opinião de conveniência, uma oscilação diante do poder. Suas opiniões foram muitas vezes contestadas e contraditas. Mas jamais alguém deixou de admirar a sua coerência, sua autenticidade e, acima de tudo, sua retidão de caráter.
Para nós, que tivemos a alegria de conviver, professor David Carneiro deixa a lembrança de um educador de tempo integral. Um conselheiro de Educação modelar. Dele se pode afirmar, junto com o Salmista, que seu ‘‘pé está firme no caminho reto’’ (Sl 25,12). Oxalá seu exemplo possa inspirar todos nós, educadores, a assumirmos dessa forma nosso compromisso com a educação e com a vida.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná.

mockup