Produzir alimentos e não quilowatts
Enquanto as atenções se voltam mais atentamente para os escândalos governamentais, uma questão delicada, de interesse do Paraná, entra em debate na Assembléia Legislativa. É o projeto de construir seis novas usinas hidrelétricas no Estado, quatro delas ao longo do rio Tibagi. É fundamental que o Poder Legislativo se ocupe do caso, inicialmente por via de uma audiência pública com ambientalistas e a comunidade em geral, marcada para o próximo dia 4. Desde que a idéia de mais usinas em território paranaense começou a florescer, dez anos atrás, reações da opinião pública e especificamente da vigilante comunidade defensora do ambiente têm se manifestado contra. Agora o projeto acaba de entrar na fase final do estudo licitatório, e despertou a atenção do deputado estadual Barbosa Neto, que se posiciona contra e está mobilizando os companheiros do Parlamento para um exame minucioso da situação. O ponto crucial é saber-se se o Paraná precisa implantar mais usinas hidrelétricas, que irão inundar grande extensão de suas terras, férteis para agricultura e pastagens, sufocar reservas indígenas e causar desequilíbrio ambiental irrecuperável. Ademais, gerando o problema do êxodo das populações que habitam essas glebas, um desastre que já ocorreu no passado e nunca foi corrigido, porque os colonos expulsos de suas propriedades correram para os centros urbanos, inchando favelas e dilapidando com o pouco dinheiro que receberam das indenizações. São conseqüências gravíssimas, porém as mais sentidas serão as das comunidades que terão seu habitat inundado, e por isso serão obrigadas a debandar, e não se sabe em que direção, porque não se ocupam desse problema subseqüente os governantes e idealizadores de usinas a qualquer custo. O Governo não pode impor sua vontade, por isso a Assembléia Legislativa precisa examinar esse projeto até à exaustão, medindo conveniência e prejuizo, já se sabendo que este será maior. O cometimento de crimes ambientais e contra pessoas, como a implantação dessas usinas, irá acontecer se os estudiosos das questões ambientais e sociais, os deputados e os cidadãos conscientes não se mobilizarem. Por desinformação ou conveniência imediata, prefeitos de municípios a serem afetados chegam a defender a idéia das usinas, por imaginar que elas trarão progresso para as suas comunas. Isto acontecerá na fase das obras, pela geração de empregos temporários, mas surgirá uma zona de pobreza quando as águas houverem afogado terras produtivas e afastado o povoamento. A previsão é de que 5,5% do território paranaense ficará sob a água se as seis usinas forem construídas. O Paraná tem vocação para produzir alimentos e não para produzir quilowatts. Será um pecado capital reverter esta dinâmica, porque as usinas existentes já bastam. Existem fontes alternativas de energia, não prejudiciais ao meio-ambiente e às populações, ademais possibilitadoras de geração de trabalho e renda permanentes. Não se fala de energia nuclear, de energia gerada da queima de fósseis e nem das hidrelétricas. É um contra-senso levar adiante o plano dessas usinas. O Poder Legislativo que a seu tempo, por ignorância ou outras razões, não soube conter o projeto dos pedágios de Jaime Lerner não pode agora negligenciar de novo ou omitir-se ante o novo perigo que se avizinha.





