PRODUÇÃO CONSCIENTE 'Temos que parar com a cultura do desperdício'
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2012
Eli Araujo <br>Reportagem Local 
A sustentabilidade está na ordem do dia. Aliar a preservação dos recursos naturais ao crescimento econômico e social é um dos principais desafios atuais da humanidade. E é com o objetivo de discutir esse e outros temas relacionados ao meio ambiente que autoridades e especialistas do mundo todo participam até 22 de junho da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), no Rio de Janeiro.
A despeito das evidência da importância de uma mudança na forma como a humanidade consome hoje, muitos países ainda usam recursos naturais de forma exagerada. E essa postura pode levar ao esgotamento de recursos naturais imprescindíveis para a manutenção da vida. Para ambientalistas, a conscientização é a única forma de reverter esse panorama sombrio.
O biólogo Cristiano Medri, professor na Universidade Estadual Norte do Paraná (Uenp), não tem dúvidas de que a conscientização virá, mas acredita que isso não ocorrerá de forma voluntária. ''A sociedade não vai se conscientizar antes que problemas graves e profundos comecem a acontecer, que haja distúrbios e problemas sérios de escassez'', aponta o doutor em Ciências Ambientais,
O principal motivo da descrença de Medri é o consumismo exagerado, que coloca em risco a saúde do planeta. Hoje, segundo ele, as pessoas consomem em demasia, retirando da terra bem mais do que ela pode oferecer. Por isso, ressalta Medri, é preciso rever com urgência o que define como ''cultura do desperdício''. ''Nós temos que usar a ferramenta da tecnologia, do conhecimento científico, do investimento maciço em pesquisa para irmos pelo caminho do aumento da produtividade e não pelo aumento de áreas. As áreas não são infinitas'', alerta.
Qual a importância das áreas de preservação permanente (APPs) para a sociedade?
As APPs têm a função de preservar áreas sensíveis do ponto de vista ambiental. São áreas que podem fornecer serviços para a sociedade. Se todas as matas ciliares forem destruídas, certamente diminuirão a qualidade e o volume de água dos rios.
Se o volume e a qualidade diminuem, quanto mais a sociedade gastará para tratar a água? De onde virá a água, se o volume diminuir? Nós temos que inverter essa lógica. A gente olha sempre a preservação da natureza como prejuízo, mas a natureza fornece serviços ambientais ao homem. Isso se chama valoração ecológica. O ecossistema conservado tem valor econômico porque fornece serviços ambientais que a população utiliza. Nós temos que encarar a preservação de determinadas áreas como investimento.
Pode-se afirmar que os recursos oferecidos pela terra não são bem utilizados?
Deveríamos encarar a terra como uma entidade sagrada. A terra deve ter um valor social, um valor ambiental e um valor econômico. O que nós vemos é que vastas áreas do País já foram desmatadas, degradadas, e não estão tendo essas utilizações. Houve desmatamento, extração predatória da madeira e agora (essas áreas) foram deixadas para trás. Virou terra arrasada. São áreas onde não se pratica uma agricultura e uma pecuária eficientes. E são milhões e milhões de hectares nessa situação.
O que poderia ser feito para mudar essa situação?
Nós temos que parar com a cultura do desperdício que temos no Brasil. Temos que parar de avançar sobre novas áreas protegidas e imprimir uma utilização adequada para as áreas já utilizadas. E isso é feito através de um zoneamento agroecológico. Algumas áreas são próprias para a atividade econômica, outras são próprias para conservação. Áreas muito acidentadas, montanhosas, de serra, não são áreas, de modo geral, propícias para a atividade econômica. A gente não pode plantar soja na beira do rio. Se fizermos um zoneamento agroecológico correto e buscarmos o aumento da produtividade, conseguiremos preservar a natureza, ser líderes mundiais, uma potência ambiental como o Brasil aspira ser, tendo simultaneamente uma alta produção agrícola. Nós conseguiremos ser uma potência agrícola e ambiental ao mesmo tempo se acabarmos com a cultura do desperdício.
Ou seja, é possível conciliar o desenvolvimento com a preservação do meio ambiente?
É possível. Nós melhoramos bastante a nossa produtividade, mas temos que melhorar muito ainda. Ano após ano nossas safras são recordes, mas ainda estão longe de alguns países, como os Estados Unidos, que têm uma produtividade muito maior em diversas culturas.
Nós temos que usar a ferramenta da tecnologia, do conhecimento científico, do investimento maciço em pesquisa para irmos pelo caminho do aumento da produtividade e não pelo aumento de áreas. As áreas não são infinitas. É isso que custou a destruição da Mata Atlântica. O caminho sempre foi o aumento da área, nunca o da produtividade.
Há como conter essa onda de degradação?
As mudanças ocorrem de maneira lenta, mas se nós pegarmos a conscientização que há hoje, é muito maior que a conscientização que havia dez anos atrás. E é muito maior do que aquela que havia 20 anos atrás. A sociedade vai mudando lentamente. As novas gerações já crescem com uma nova consciência ambiental. Quando éramos crianças, isso era muito menos discutido nas escolas ou mesmo dentro de casa. Hoje as crianças crescem com uma nova visão do meio ambiente.
Não é contraditório falar em preservação do meio ambiente sem pensar em uma nova mentalidade de consumo?
Isso envolve uma alteração muito mais profunda na sociedade. O nosso modelo econômico capitalista, baseado no consumismo exacerbado. É um modelo que busca sempre crescer e consumir. Vasta parte da população mundial consome muito mais do que precisa para a sua sobrevivência, muito mais mesmo. Nós temos muito mais do que precisamos. O planeta é finito. Até que ponto teremos minério de ferro para produzir tanto carro? Até quando teremos petróleo, madeira? Até quando poderemos usar esses recursos naturais?
É necessária uma profunda transformação na sociedade; uma mudança de modelo, saindo desse modelo extremamente consumista para um capitalismo mais consciente, mais sustentável. Nós fomos educados desde pequenos a consumir. A pessoa que está fora do mercado de consumo deixa de ser cidadã, não é respeitada, se torna uma excluída da sociedade. Só é cidadão quem consome. Isso não é dito com todas as letras, mas nas entrelinhas é assim que funciona.
E quando a sociedade vai se conscientizar que a mudança é necessária?
Uma hora a sociedade vai ter que fazer essa discussão. Acho que ainda não vai acontecer agora. Antes, problemas ambientais maiores terão que acontecer. A escassez terá que ser bem maior. A mudança vai ocorrer, mas de maneira forçada. Não vai ser uma mudança de consciência.


