Mais de 90 mil vagas de emprego não serão ocupadas este ano no Brasil, segundo levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A principal conclusão do estudo é que faltam profissionais qualificados para ocupar estes postos de trabalho.
Para a consultora organizacional e presidente da regional norte do Paraná da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Kátia Marcos Gomes, governo, universidades e empresariado devem se unir para identificar esta demanda de vagas não preenchidas.
Do lado do empregado, a dica da consultora é trabalhar não só as competências técnicas, mas também o comportamento, que faz toda diferença nos processos de seleção. Confira a entrevista que ela concedeu à FOLHA:
Sobram vagas e faltam profissionais qualificados no mercado. Onde está a raiz do problema?
Falta mão-de-obra dependendo da tendência de determinada região e a oferta de cursos. Londrina, por exemplo, vem de uma vocação agroindustrial e tem pouca formação para isso. Indústrias vêm para a região e nós não temos formação dentro da área industrial. A carência maior está nesta área. Nós temos várias universidades com cursos muito parecidos, dentro da área de prestação de serviços, e poucos voltados para a área industrial.
Faltou planejamento?
O alinhamento entre um plano diretor de desenvolvimento, com o governo conversando com as universidades, seria imprescindível para diminuir esta distância entre formação e mercado. Talvez, esta seja uma boa sugestão para os políticos, incentivar a conversa com as universidades, o empresariado, que precisa também se posicionar e expor suas necessidades de mão-de-obra.
Como se preparar para o que o mercado procura?
Formação superior não é suficiente para trabalhar em uma empresa. É item básico. O mercado requer especialização, formação técnica e desenvolvimento de atitudes, da parte da comportamental, que não se adquire somente fazendo o curso de graduação. Nos processos seletivos de hoje, a qualificação técnica é buscada, mas o foco está nas atitudes. Competências comportamentais como relacionamento interpessoal, criatividade, liderança, espírito de equipe, iniciativa não são muito trabalhadas pelas pessoas.
E como elas podem ser trabalhadas?
O começo de tudo é a busca pelo autoconhecimento. Comece a pensar em você e a descobrir suas vocações, desejos e necessidades, o que o motiva. Junto com o autoconhecimento vem a questão de experimentar, buscar orientação, ter mentores na carreira. Os alunos exploram muito pouco o conhecimento do professor. Foi até publicado em uma das reportagens do caderno de empregos da FOLHA que não custa nada conversar com profissionais que já estão na área que você vai atuar. Aprender a participar de grupos também é imprescindível para trabalhar em uma grande empresa. A tendência é de organizações cada vez mais enxutas, com menos níveis hierárquicos. As pessoas precisam mostrar possibilidade de argumentação, decisão e negociação.
Tem como buscar um meio termo entre o que o profissional quer e o que o mercado precisa?
Uma das características muito buscadas em um profissional é a visão sistêmica, estratégica de negócios. E para isso é preciso estar muito antenado. Leitura é imprescindível para ter uma visão macro de ambiente, além de participar de grupos de outras áreas e não trabalhar com preconceito. Ter uma abertura mesmo.
Qualificação nunca é demais?
Para alguns pesquisadores, um profissional de sucesso tem como característica a capacidade de fazer de todos os momentos um aprendizado. Nós nunca estamos prontos, até porque o mundo no qual a gente vive nunca é igual. Esta volatilidade do mercado exige um profissional extremamente flexível, e a flexibilidade está ligada ao nível de abertura que você tem para coisas novas. Quem não estiver aberto para outros conhecimentos, fica de lado no mercado.
Mudar de profissão no meio do caminho também não é um pecado...
De jeito nenhum. Muitas pessoas estão frustradas no emprego. Da parte ativa do nosso dia, boa parte é no trabalho. Se eu ainda estou fazendo algo que não gosto, vai refletir em algum aspecto da minha vida. Talvez isso explique o alto nível de depressão e doenças psicossomáticas que tem por aí. Não é nenhum pecado fazer uma alteração de curso, desde que você tenha bem desenhado para onde quer ir.

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