A maior con quista da rede mocratização brasileira foi a independência e a competência do nosso Minis tério Público (MP). Em pouco tempo, o MP já conseguiu proteger o Brasil contra dezenas de corruptos e assustar outros, mas sua maior vitória será quando, de tanto assustá-los, eles deixarem de existir e virarem fantasmas de um passado histórico.
Hoje, o mérito está nos resultados do rigor do trabalho que assusta os corruptos; em breve vai estar na eliminação da corrupção na política nacional.
Se tivermos a paciência de manter, por mais dez anos, o trabalho do Ministério Público, em breve os corruptos se esconderão longe do público, fora da vida política. Só então, os nossos procuradores poderão dizer que, de fato, mudaram o País. Por enquanto, eles o estão protegendo, com muita competência e dedicação. Mas ainda de forma incompleta.
O Ministério Público ainda não tem se dedicado a uma das formas mais brutais de corrupção que passa despercebida no Brasil de hoje: a publicidade mentirosa durante o processo eleitoral e durante o exercício do governo.
O Senado conseguiu forçar a renúncia de dois dos seus mais poderosos senadores por terem mentido para seus pares. Mas até hoje não houve um único gesto de denúncia de parte dos nossos zelosos procuradores contra a mentira que os políticos dizem para todo o povo.
Talvez não haja pior forma de corrupção do que um governante usar dinheiro dos impostos pagos pelo povo para enganar o próprio povo mediante publicidade mentirosa. Além de roubar o dinheiro que poderia ser usado para atender necessidades do povo, gasta o dinheiro roubado para enganar o povo. Rouba da gente e ri da gente. No próximo ano, será ainda pior. Hoje, usa o nosso dinheiro para divulgar mentiras do seu governo. No próximo ano, vai usar nosso dinheiro para nos convencer a votar nele.
No próximo ano, a campanha eleitoral terá recursos públicos, os candidatos vão receber dinheiro de impostos para financiar suas campanhas. Uma medida que procura evitar a corrupção do financiamento espúrio pode fazer dupla corrupção: o candidato usar dinheiro do povo para mentir ao povo, comprando voto com o dinheiro do eleitor, enganando-o, para, depois de eleito, poder roubá-lo ainda mais. Como o ladrão que bate a carteira de uma pessoa para comprar o revólver com o qual invade a casa do roubado.
Isso pode ocorrer debaixo dos olhos de nosso combativo e competente, dedicado e rigoroso Ministério Público, por não haver uma procuradoria da verdade. O que seria possível se o horário eleitoral fosse feito apenas com debates, no lugar do luxuoso desfile das grifes de marqueteiros; e se os eleitos fossem punidos legalmente por não cumprirem suas promessas de campanha.
Nada indica que isso será feito, porque a elite brasileira se preocupa com o roubo dentro da elite, não se preocupa com o roubo feito pelos ricos contra os pobres. Agimos contra o empresário e o juiz que se apropriam do dinheiro que era para construir um prédio, mas não nos preocupamos com o dinheiro tirado de escolas e hospitais para construir esse prédio.
Já podemos ter orgulho do Ministério Público, que mostra sua competência para desvendar os truques e artimanhas dos corruptos, mas só vamos ter um Ministério Público verdadeiramente forte, quando ele for capaz de agir também contra a mentira na política e não apenas contra o roubo financeiro dos políticos.
Se um político é cassado por mentir aos pares, não há razão para tolerar que minta livremente e use nosso dinheiro para nos enganar, divulgando suas mentiras.


- CRISTOVAM BUARQUE, ex-governador do Distrito Federal pelo PT, é professor universitário em Brasília

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