Problemática decisão sobre engraxates
Se em 42 anos nunca houve problema com os jovens engraxates que atuam no Centro de Londrina, sob a tutela da Liga dos Engraxates Mirins, o problema foi agora criado pela Justiça do Trabalho, a pedido do Ministério Público. Porque a decisão foi que eles não podem mais operar. Um indicativo é que podem se converter em delinquentes, porque se a medida (que entra em vigor sábado) lhes subtrai e fonte de ganho, não indica onde arranjar-lhes outro trabalho e renda e também não acena em como socorrer familiares que, em alguns casos, dependem da ajuda financeira deles.
O argumento é que o trabalho nas ruas prejudica a formação dos adolescentes, mas tal não aconteceu nas quatro décadas de existência da Liga, entidade mantida por uma pastoral social. Engraxates de outrora são hoje cinquentões e não há registro que se possa considerar preocupante de desvios de conduta. Até porque o ponto onde eles atuaram e atuam não oferece o risco imaginado, e a freguesia é tão conhecida quanto esses meninos. O próprio meio, pela sua natureza, é o natural policiador, sabendo-se que o local é bastante frequentado por aposentados. Doravante sim, sem ocupação e sem nada ganharem, eles poderão perder-se nos desvãos. A advogada que serve à Liga dos Engraxates, Giane Psuruta, diz lamentar a argumentação constante da sentença e poderá recorrer da decisão. ''É um absurdo dizer que eles (esses pequenos trabalhadores) estão se marginalizando - ela reage - porque todos os clientes dos meninos são pessoas sérias que já estão acostumadas com eles.'' Um tópico risível do despacho judicial é que está prevista a multa de R$ 1 mil cada menino se a ordem não for obedecida. Certamente a mira da cobrança é a Liga. ''Minha mãe tem problema de saúde e eu a ajudo em casa'', diz um dos 20 jovens que compõem esse grupo.
Profissionais da Liga - uma instituição já tradicional em Londrina - fazem acompanhamento da atividade desses engraxates, e a informação é que os obrigam a frequentar a escola regular e também a fazer cursos profissionalizantes. Se a criança e o adolescente precisam ser protegidos, há um grande número deles (e também de jovens carentes de maior idade) perambulando sem rumo pelas ruas. Um cidadão ouvido por este Jornal e citado na reportagem de ontem declara ser freguês dos engraxates, que aprecia o trabalho deles e que não vê perigo para esses trabalhadores mirins. Opina que se os engraxates pararem de trabalhar, aí sim ''acabarão indo para as ruas'' - expressão usada para quem fica sujeito a delinquir. Como ensina Montesquieu, uma coisa não é justa porque é lei mas deve ser lei porque é justa.





