A menos que desabe sobre o Senado, na hora da votação, um temporal político de trovões, raios, vendaval e granizo - como o da ópera ‘‘Aída’’, segundo o exagero de Nelson Rodrigues - os senadores não estenderão o direito de reelegibilidade concedido ao presidente da República a governadores e prefeitos, a partir de 1998.
Quem explica essa reação do Senado é o senador maranhense Edison Lobão: mais da metade dos senadores pretende candidatar-se a governador e não aceita fazê-lo em confronto com postulantes à reeleição.
Lobão revela ter visto nas mãos do também senador maranhense Epitácio Cafeteira, seu adversário político, pesquisas pormenorizadas que confirmam tais cifras. Em todos os estados há, pelo menos, um senador candidato à sucessão estadual; em alguns, os três representantes no Senado vão candidatar-se, mas, na maioria, apenas dois senadores disputarão o pleito de governadores em 1998. Um desses estados é o Maranhão, no qual o pefelista Lobão deve defrontar-se com Cafeteira, do PPB.
Pelo visto, não só é provável mas quase certo que a emenda reeleitora, originária da Câmara - que admite a reelegibilidade presidencial, de governadores e prefeitos - seja alterada no Senado e volte àquela casa, para aprovação ou rejeição do novo ordenamento dado ao assunto. Se for derrubada a mudança promovida pela maioria avassaladora que o governo tem no Senado (sete senadores por um da oposição), a bancada majoritária de Fernando Henrique, na Câmara, em proporção mais baixa (não chega a quatro deputados contra um oposicionista) criaria um choque de consequencias imprevisíveis entre as duas casas do Congresso.
Ninguém acredita, no entanto, que isso aconteça, pois os senadores contam, na Câmara, com aliados pessoais dispostos a ajudá-los, tanto mais que será preservada a reelegibilidade que interessa a todos os governistas do Congresso: a do presidente FHC.
Mas a questão tem outras implicações. Preteridos pelos senadores correligionários nos sonhos de reeleição, governadores e prefeitos podem cruzar os braços na campanha reeleitoral de FHC. Os partidos governistas não crêem nessa hipótese de ruptura prévia dos líderes estaduais e municipais com o presidente e os futuros governadores. Se eles chegarem a tanto, ficarão sujeitos, depois, a duras represálias.
No que lhes diz respeito, os senadores querem fugir aos grilhões da reelegibilidade em todos os níveis, pois conhecem o peso do poder dos estados e não pensam em fazer haraquiri político. A oposição, sem alternativa, que o faça. Vê-se, com a reação senatorial, que a idéia subjacente à reelegibilidade era o esmagamento da qualquer oposição, dentro ou fora do governo, na base do vale-tudo. Inclusive o recurso aos vícios políticos da república velha, para intimidação de amigos e inimigos. Mas o eleitor, a quem se oferece uma oligarquia que dure vinte anos, terá de aceitar o que os senadores não aceitam.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.

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