Problemas com a energia - Editorial
Problemas com a energia
A antecipação do início do horário de verão, que começa no próximo dia 3, é uma das medidas que o Brasil adotará para evitar a ameaça antecipada da possibilidade de racionamento de energia nos próximos meses. As autoridades já garantiram que não existe qualquer intenção de racionar o consumo, mas não podem assegurar que não haverá blecautes ou apagões num futuro próximo, dada à previsão de um aumento no consumo de energia. Horário de verão, campanhas visando esclarecer a população e levá-la a racionalizar o consumo, esforços com o intuito de conter o desperdício, tais são as medidas que se anunciam e que representam apenas o corolário da falta de planejamento e visão sobre o assunto.
Há anos são feitos alertas sobre a situação energética brasileira. Previsões sobre a ocorrência de blecautes, por causa do aumento no consumo e a falta de produção, vêm sendo feitas há anos, sem qualquer resposta prática dos governantes. O Brasil, aparentemente, só consegue enfrentar problemas sob a pressão de situações complicadas. O que está acontecendo no setor energético era previsto exatamente porque não tem havido disposição e vontade para se enfrentar adequadamente o problema. O Brasil só não está em situação pior no que tange à questão por causa da queda no próprio crescimento econômico, à recessão que acabou reduzindo o consumo energético. Acontece que como a população continua a crescer, chega um momento em que as necessidades vão se ampliando. E como não se deu a devida atenção ao problema, surgem as medidas alternativas, como o horário de verão, que ajudam, sem dúvida, mas que não resolvem.
Energia é poder. Esta lição deveria ter sido aprendida, pelo menos, nos anos 70, quando ocorreram os primeiros choques do petróleo. Até então, o Brasil vivia na doce despreocupação diante do assunto. Como o petróleo importado era barato, não havia sequer interesse em prospectá-lo em terras brasileiras. Ao contrário, existia era uma política de desestímulo à produção interna. Até que o petróleo quadruplicou de preço, e o Brasil (como muitos outros países do mundo) se viu em palpos de aranha para resolver a questão da demanda energética. O choque teve um lado bom: o Brasil despertou para o problema e passou a agir em múltiplas frentes para superar a dependência de energia. Surgiram os programas do álcool, houve um importante estímulo à construção de usinas para geração de energia hidrelétrica e de outras fontes (como a eólica e a solar), além de se realizar uma reviravolta no campo da prospecção, com a descoberta de importantes jazidas de petróleo, notadamente no mar.
Com a readequação aos novos preços e o aparente fim das pressões dos produtores de petróleo o Brasil voltou à velha forma. Os problemas surgidos nos anos 80, o crescimento da dívida externa, a falta de recursos para investimentos, igualmente, acabaram relegando a plano secundário muitos programas relativos à energia. Hoje, todos aqueles temores dos anos 70 parecem esquecidos e nem mesmo os alertas feitos nos últimos anos serviram para produzir reações efetivas. O resultado aí está: o País já enfrentou alguns apagões sérios, a ameaça de blecaute, principalmente na região mais desenvolvida, é grande, a possibilidade de racionamento já é cogitada como inevitável. Para enfrentar tudo isto, o horário de verão, os apelos contra o desperdício, os alertas sobre o consumo podem até ser suficientes, agora. Mas o problema vai persistir. E é imprescindível que o Brasil volte a cuidar objetivamente de políticas para atender à demanda de energia. Sem isso, os grandes problemas vividos nos anos 70 serão repetidos e ampliados.





