A precariedade também é sentida em algumas vilas já consolidadas, mas que ainda não dispõem da infra-estrutura necessária. É o caso da Vila Zumbi, em Colombo, que iniciou com a invasão da área há 13 anos e hoje conta com 10 mil moradores. Outro exemplo é a Vila das Torres, antiga Vila Pinto, em Curitiba. Com 5.239 habitantes, de acordo com o censo IBGE/2000, a vila passou por processo de urbanização em 1992, durante a gestão de Roberto Requião como prefeito e hoje tem 90% de rede de água e esgoto. O problema é a grande quantidade de lixo, armazenado em praticamente todas as casas, uma vez que a maioria trabalha como catador de papel.
Na Vila Zumbi, o esgoto deságua em valetas abertas na frente das casas. ''Em dia de chuva, a valeta enche e sobe tudo, tanto que tive que fazer um degrau na frente da porta para a água não entrar'', conta Nadir dos Santos, 33 anos, preocupada em não deixar o filho caçula Eliezer, de cinco anos, brincar na água suja. Por isso, ela está colocando manilha em frente de casa.
Mesmo com cuidados, Jucimara Bolfim, 28 anos, não conseguiu evitar que os cinco filhos ficassem doentes. ''Três foram internados com pneumonia, o mais velho Marcos, de 11 anos, passou 15 dias de cama com hepatite A e a Tainara, de 6 anos, está com umas manchas brancas no corpo. Acho que tudo é por causa dessa água'', diz. Sua casa fica nos fundos de outra e o acesso é feito por um corredor. Na frente, uma manilha estourada contribui para espalhar o esgoto pelo local e quando chove tudo fica encharcado.
Longe dali, na casa do representante dos carrinheiros da Vila das Torres, o catador de papel Joel de Matos, 62 anos, os móveis, roupas e utensílios todos gastos confundem-se com dezenas de sacos de lixo, que vão sendo acumulados até somar uma quantidade razoável que permita uma venda mais rentável. Sua esposa Tereza Camargo de Matos admite que a sujeira causa problema para a saúde. ''Um neto teve hepatite. E, às vezes, aparecem uns ratinhos, por isso nós temos um gato'', diz. Eles também têm cachorros, que dormem embaixo do mesmo sofá rasgado onde dormem os netos Adriano, Alexa, Cesar e o bisneto Gabriel.
Além de conviver com a sujeira, as crianças saem com os adultos para catar o papel ou ajudam na separação do material. Uma situação típica são as casas tipo sobradinho, onde a família vive em cima e o lixo é armazenado no térreo. Simone Vidal de Oliveira, 32 anos e sete filhos, divide o andar de baixo com o depósito. Ela garante que as crianças permanecem o tempo todo com atividades na escola ou em projetos da prefeitura, como o projeto Piá e creches. Mas isso não evita contato com o lixo e as doenças. ''Volta e meia eles têm vermes e um já teve pneumonia'', diz.
Só os moradores da Vila das Torres recolhem por dia 370 toneladas de lixo. No local existem cerca de 60 depósitos, que funcionam como intermediários entre os catadores e as empresas recicladoras.

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