Em tempos em que o empresariado almeja o lucro e sobreviver no mercado é uma briga de foices, os setores público e privado agindo em sintonia seria uma utopia? Para o doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná, Sérgio Gini, a resposta é negativa.

Autor do livro recém-lançado ''A construção da hegemonia empresarial nos 10 anos que mudaram Maringá (1994-2004)'', Gini atesta: o projeto político do empresariado maringaense tornou-se hegemônico a partir do Movimento Repensando Maringá.

Oficializado em 1996, o movimento legitimou-se por unir os interesses dos empresários do comércio, da indústria, da prestação de serviços, do agronegócio, as entidades de classe, os clubes de serviço, em torno de um mesmo ideal: o desenvolvimento da cidade.

Empresariado e gestão política caminham juntos?
A gestão política precisaria caminhar não somente com o empresariado, mas com os movimentos sociais e populares, com os clubes de serviço, com os operários e trabalhadores urbanos, com a comunidade acadêmica. Estar junto com esse ou aquele segmento na gestão política em detrimento de outros é um erro que muitos cometem.

Quando há traços de aceleração econômica, muitos culpam os políticos. Mas o empresariado também tem sua parcela de responsabilidade, não?
O empresariado está aconchegado numa dinâmica capitalista que o favorece, em detrimento de outros setores de uma comunidade. Sem dúvida que a aceleração econômica é o principal alvo dessa classe, mas isso precisa ser feito de forma sustentável para que não surjam os bolsões de miséria cujos exemplos temos em diversos locais do Brasil. Se o empresariado se acomoda, permite que outros agentes se sobressaiam. Por isso, ele deve se mexer na defesa de seus interesses e, inclusive, agir como um legítimo participante do jogo político. As pesquisas recentes que tratam sobre o papel do empresariado na dinâmica capitalista tentam compreender como e em que medida se dá, ou quais os padrões, da sua ação política. Aquela velha discussão que havia na academia se o empresariado brasileiro era ''fraco'' ou ''forte'' está ultrapassada.

Como foi a pesquisa do livro?
O objeto de pesquisa foi o empresariado, mais precisamente a ação política dele em uma cidade de médio porte como Maringá. No livro, abordo como o empresariado local se uniu em torno de um projeto de desenvolvimento para a cidade, iniciado em 1994; como se articulou para que este projeto se tornasse hegemônico, condição essencial para ser aceito pela comunidade; e como se deu a ação empresarial influenciando diretamente o campo da política institucionalizada, com propostas concretas aos governos municipais que se sucederam desde a instalação do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá - principal fruto do Movimento -, em 1997.

Quais os resultados práticos que nota, em Maringá?
No livro não procuramos fazer qualquer juízo de valor sobre a ação do empresariado. Se foi ruim ou bom para a cidade. É claro que no dia-a-dia estão nítidos os resultados práticos da ação que foi pensada lá atrás. Maringá tornou-se um pólo de excelência em software, o setor de prestação de serviços evoluiu muito; o município é referência em ensino superior com uma universidade que está entre as melhores do Paraná e um centro universitário de renome, além de diversas faculdades.

Qual a vocação de Maringá, para prosperar econômica e socialmente?
A prosperidade econômica nem sempre está atrelada com a prosperidade social. Maringá ainda é uma cidade muito desigual. Tem muito desemprego, muitos problemas sociais (drogas e violência são alguns), os salários pagos aqui estão abaixo da média do que se paga em cidades do mesmo porte. Entretanto, é importante reconhecer que a cidade se destaca quando comparada com outras no Paraná.

Conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Maringá é a cidade do interior do Paraná que criou o maior número de postos de trabalho nos primeiros três meses do ano. Repercute o atual momento da cidade.
O número de empregos criados é prova de que o desemprego na cidade ainda é grande. Mas é um bom sinal. Sinal de que a cidade ainda pode se desenvolver muito mais. Se compararmos a Maringá de hoje com a Maringá do início do Movimento relatado no livro, veremos que crises foram superadas; veremos também que outros agentes políticos ganharam importância no cenário local.

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