Privilégios e hipocrisia do poder
Hélio Doyle
O time é respeitável: governo federal, governadores vinculados a diferentes partidos, parlamentares sérios e outros nem tanto, adeptos explícitos e disfarçados do neoliberalismo e os que acreditam com convicção, por conveniência ou ignorância, que déficit público se resolve confiscando renda de assalariados.
Esse respeitável time tem manifestado preocupação com o que considera privilégios nocivos ao país. Tem razão em parte, pois realmente é um privilégio receber salários, esteja o servidor na ativa ou aposentado, superiores à remuneração do presidente da República. Ou receber aposentadorias de R$ 15 mil ou mais.
Mas não é nenhum privilégio o aposentado não descontar contribuição para a previdência social. As pessoas contribuem durante anos, na ativa, justamente para receber os benefícios quando se aposentam. É óbvio e elementar.
Mas, ao mesmo tempo em que fazem discursos contra os privilégios existentes, muitos integrantes desse time respeitável fazem vistas grossas ou consideram perfeitamente normais práticas profundamente nocivas ao serviço público ádo governo federal – e que, aí sim, configuram privilégios.
Uma dessas práticas em uso ‘‘regular’’ é a complementação salarial por intermédio de empresas privadas. O funcionário, do quadro ou comissionado, ganha o salário e mais uma quantia paga ‘‘por fora’’.
É uma coisa meio obscura. Quem paga o ‘‘adicional’’ para os funcionários são, geralmente, empresas que prestam serviços ao órgão. E o pretexto para tentar justificar a imoralidade são os baixos salários pagos aos servidores públicos... Se não fosse o ‘‘caixa 2’’, aquelas pessoas não aceitariam trabalhar no serviço público, argumenta-se.
Haja hipocrisia. Os mesmos que defendem o congelamento dos salários dos servidores por cinco anos, que acham serem os funcionários públicos privilegiados que ganham muito bem e não merecem a aposentadoria integral aceitam pagar ‘‘por fora’’ a seus protegidos. Reconhecem que o serviço público paga mal, mas só aos protegidos deles.
Fora os que entregam os cargos comissionados (os famosos DAS) a pessoas inabilitadas e incompetentes, admitidas por critérios político-fisiológicos.
Outro privilégio é ocupantes de cargos comissionados passarem três dias em Brasília e viajarem para seus Estados (geralmente, São Paulo) com passagens pagas pelos órgãos públicos. É fácil: a autoridade alega que vai trabalhar em São Paulo, que na segunda-feira estará despachando na capital paulista, ou arruma uma agenda lá para justificar a imoralidade.
Mas esses privilégios não incomodam muito o time respeitável que tudo faz para sucatear o serviço público e infernizar a vida dos servidores. Como não incomoda saber que a ex-dama de ferro da luta contra os funcionários – a ex-ministra e ex-secretária Cláudia Costin – beneficiou-se financeiramente de medidas implantadas por ela e agora quer ganhar muito dinheiro prestando consultoria para aliados do governo federal.
São privilégios do time. Aí, pode.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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