Privatização do Banestado: a quem interessa?
Paulo Afonso Rodrigues
Quais são os compromissos dos compradores com os funcionários e com os clientes na manutenção da estrutura do Banestado? Quem vai competir no processo de compra com exigências alheias ao objetivo final que é o lucro? Os responsáveis pela privatização do Banestado, às vésperas do processo, devem ter o máximo de cuidado nas exigências a serem postuladas no pós-venda, no intuito de resguardar os interesses de quem estruturou o banco até o presente momento: os clientes e o povo paranaense.
Estamos diante de uma instituição que recebeu do Proer R$ 5 bilhões e que em balanço pós-saneamento, já gerou lucros superiores a R$ 500 milhões. É uma estrutura de décadas que deve merecer o máximo de atenção dos responsáveis pela privatização e da sociedade em geral. Estará sendo privatizado um banco de um Estado que é um dos cinco maiores do Brasil, com grande representatividade nos meios de produção e na composição do PIB.
Com o regime estratégico capitalista imposto, pós Plano Real, as instituições financeiras voltadas ao fomento e também às aplicações de empréstimos no atacado e varejo, sofreram com a iliquidez devido aos custos reais dos juros e ao inchaço operacional causado pelo Real. Os custos anteriores eram suportados pela inflação e as aplicações dos bancos possuíam liquidez já que os títulos do governo, em sua maioria a origem destas aplicações, mantinham os pagamentos em dia.
Com a inserção do novo plano, as instituições passaram a pagar em torno de 2% a 3% ao mês e cobrar taxas por volta de 12% a 20% ao mês a título de juros. Os tomadores de crédito sucumbiram com o alto custo financeiro, proveniente de capitalizações dos juros e também dos débitos lançados em conta corrente a título de prestações de serviços, que, em muitas vezes, não foram prestados ou foram empurrados aos tomadores de crédito.
De um lado ficou a captação para ser honrada e de outro um empréstimo inchado não cumprido. Daí a inadimplência e a instabilidade.
O mercado internacional deparou com a veemente necessidade da economia brasileira em obter recursos. E, para viabilizar a entrada dos bancos internacionais foi introduzida, em agosto de 1998, a ‘‘central de risco’’ no meio bancário, amparada por pressões técnicas e políticas.
Nos países de Primeiro Mundo, 85% da população utilizam-se os meios bancários e serviços financeiros. No Brasil, este mercado não ultrapassa 18% da população economicamente ativa, o que desperta ainda mais o interesse dos bancos internacionais. E, como o Banco Central limita as autorizações de cartas patentes para abertura de novas agências, a oportunidade da expansão dos bancos internacionais está na compra dos bancos ofertados no mercado.
Aí fica a preocupação: como um banco que dá um lucro de R$ 500 milhões, de acordo com o último balanço, pode ter um preço inicial de lance inferior a este lucro? Quem pagaria as diferenças do Proer e as recuperações dos créditos podres?
Além da infra-estrutura do Banestado presente em nove Estados, com 677 pontos de atendimento, existe o custo da carta patente. Se um banco nacional de alta estrutura geográfica adquirir o Banestado, o que acontecerá com as agências se o comprador já tiver as suas? Serão fechadas? As agências pioneiras serão mantidas? Quais são os compromissos dos compradores com os funcionários e com os clientes na manutenção da estrutura? Existirá um prazo para este atendimento? Ou, mais uma vez, será levado em consideração a rentabilidade oferecida por uma agência de pequeno porte no mercado?
Será que as agências do interior do Paraná, em se tratando das cartas patentes, não serão utilizadas para aberturas de agências consideradas ‘‘de asfalto’’ e de ótimo mercado financeiro? Com certeza o mercado irá ver com bons olhos uma agência bancária em um mercado que possua mais recursos financeiros. Daí a pergunta: como fica o banco no Paraná e no Brasil com relação aos funcionários e aos clientes?
A preocupação é grande e o alerta é oportuno já que todas essas exigências devem ser formuladas no momento da venda. Mas, daí vem outra pergunta: quem vai competir na compra com exigências alheias ao objetivo final que é o lucro?
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina

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