A privatização da Vale do Rio Doce está se transformando em moeda política e pode ser utilizada no processo de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. A senha foi dada ontem pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), contrário à venda da estatal e indeciso quanto à reeleição. A pretexto de negar qualquer relação entre uma coisa e outra, Sarney declarou o seguinte: ‘‘Se o presidente convocasse a Nação para dizer que não privatiza a Vale e pedir que passe a reeleição, grande parte dos que estão nesse movimento (contra a venda) pagariam o preço.’’
Sarney falou logo depois de almoçar com o ex-presidente Itamar Franco em sua residência oficial. ‘‘Não é uma proposta, é uma hipótese’’ acrescentou Sarney, ao lado de Itamar. Um político que trabalhou com os dois personagens interpretou o recado: o presidente do Senado está avisando ao Planalto que a reeleição não passa no Congresso se não for revista a decisão de privatizar a Vale. Itamar reafirmou ser contra a venda da Vale e ‘‘doutrinariamente contra a reeleição’’, posições segundo ele já conhecidas por Fernando Henrique.
‘‘Estamos oferecendo ao presidente da República o apoio para ele dar um passo atrás’’, disse Sarney. ‘‘O presidente não pode ser insensível aos movimentos da opinião pública, nem ficar apenas na questão formal de quem tem poderes para tal e, por isso, determinar a venda da Vale’’. Para Sarney, a existência de uma frente contra a venda da empresa não deve ser ignorada.
O almoço com Sarney foi o ponto alto da passagem de Itamar Franco por Brasília, especialmente voltada para a articulação do movimento contra a venda da Vale. Depois do almoço, Itamar foi para a sede da Fundação Oscar Niemeyer, onde recebeu, entre outros, os presidentes do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), e do PT, José Dirceu, o brigadeiro Ivan Frota e os presidentes da OAB, Ernaldo Uchoa Lima, e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Américo Antunes.
Coincidência ou não, os principais signatários do manifesto contra a venda da Vale também são contrários à reeleição de Fernando Henrique Cardoso, embora não queiram fazer uma ligação direta. ‘‘Temos uma só causa, que é a defesa da Vale, num movimento suprapartidário que não pode ser desvirtuado’’, afirmou o petista José Dirceu. ‘‘Há pessoas favoráveis à reeleição que integram o movimento’’, disse Sarney. ‘‘O movimento é cívico, não é político.’’
Na próxima semana, haverá atos públicos contra a privatização da Vale, em Minas, Rio e Brasília. O maior de todos os atos deve ocorrer em Belo Horizonte dia 12 de dezembro, quando a cidade completa 99 anos. O atual prefeito, Patrus Ananias (PT), e seu sucessor eleito, Célio de Castro (PSB) integram a frente anti-privatização. Eles devem atrair os presidentes de honra de seus partidos, Luiz Inácio Lula da Silva e Miguel Arraes, para um palanque que terá também o ex-presidente Aureliano Chaves, Sarney e o própro Itamar, entre outros.
Itamar Franco evitou fazer qualquer crítica direta a Fernando Henrique, mas disse que, mesmo sendo embaixador - ‘‘representante do Brasil e do presidente no exterior’’ - está contra a venda da Vale, sem medo de um choque com o presidente. ‘‘Ele conhece meus princípios e sabe que é meu dever de cidadania defender o patrimônio que a Vale representa para o País’’, disse Itamar. Para ele, o objetivo do movimento é ‘‘tentar convencer as autoridades, principalmente o presidente da República, sobre o erro que se está cometendo’’.

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