Privatização da Vale vira moeda política
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quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Agência Estado 
A privatização da Vale do Rio Doce está se transformando em moeda política e pode ser utilizada no processo de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. A senha foi dada ontem pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), contrário à venda da estatal e indeciso quanto à reeleição. A pretexto de negar qualquer relação entre uma coisa e outra, Sarney declarou o seguinte: Se o presidente convocasse a Nação para dizer que não privatiza a Vale e pedir que passe a reeleição, grande parte dos que estão nesse movimento (contra a venda) pagariam o preço.
Sarney falou logo depois de almoçar com o ex-presidente Itamar Franco em sua residência oficial. Não é uma proposta, é uma hipótese acrescentou Sarney, ao lado de Itamar. Um político que trabalhou com os dois personagens interpretou o recado: o presidente do Senado está avisando ao Planalto que a reeleição não passa no Congresso se não for revista a decisão de privatizar a Vale. Itamar reafirmou ser contra a venda da Vale e doutrinariamente contra a reeleição, posições segundo ele já conhecidas por Fernando Henrique.
Estamos oferecendo ao presidente da República o apoio para ele dar um passo atrás, disse Sarney. O presidente não pode ser insensível aos movimentos da opinião pública, nem ficar apenas na questão formal de quem tem poderes para tal e, por isso, determinar a venda da Vale. Para Sarney, a existência de uma frente contra a venda da empresa não deve ser ignorada.
O almoço com Sarney foi o ponto alto da passagem de Itamar Franco por Brasília, especialmente voltada para a articulação do movimento contra a venda da Vale. Depois do almoço, Itamar foi para a sede da Fundação Oscar Niemeyer, onde recebeu, entre outros, os presidentes do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), e do PT, José Dirceu, o brigadeiro Ivan Frota e os presidentes da OAB, Ernaldo Uchoa Lima, e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Américo Antunes.
Coincidência ou não, os principais signatários do manifesto contra a venda da Vale também são contrários à reeleição de Fernando Henrique Cardoso, embora não queiram fazer uma ligação direta. Temos uma só causa, que é a defesa da Vale, num movimento suprapartidário que não pode ser desvirtuado, afirmou o petista José Dirceu. Há pessoas favoráveis à reeleição que integram o movimento, disse Sarney. O movimento é cívico, não é político.
Na próxima semana, haverá atos públicos contra a privatização da Vale, em Minas, Rio e Brasília. O maior de todos os atos deve ocorrer em Belo Horizonte dia 12 de dezembro, quando a cidade completa 99 anos. O atual prefeito, Patrus Ananias (PT), e seu sucessor eleito, Célio de Castro (PSB) integram a frente anti-privatização. Eles devem atrair os presidentes de honra de seus partidos, Luiz Inácio Lula da Silva e Miguel Arraes, para um palanque que terá também o ex-presidente Aureliano Chaves, Sarney e o própro Itamar, entre outros.
Itamar Franco evitou fazer qualquer crítica direta a Fernando Henrique, mas disse que, mesmo sendo embaixador - representante do Brasil e do presidente no exterior - está contra a venda da Vale, sem medo de um choque com o presidente. Ele conhece meus princípios e sabe que é meu dever de cidadania defender o patrimônio que a Vale representa para o País, disse Itamar. Para ele, o objetivo do movimento é tentar convencer as autoridades, principalmente o presidente da República, sobre o erro que se está cometendo.


