Privatização à moda da casa - Miguel Ignatios
Privatização à moda da casa
Miguel Ignatios
Não lhe parece óbvio, leitor, que antes de o governo ter privatizado os setores de telecomunicação e de energia, principalmente, por serem serviços essenciais às empresas e à população, teria que ter apresentado aos candidatos uma espécie de caderno de encargos? Se até mesmo a Fifa faz isso para escolher onde acontecerá o Campeonato Mundial de Futebol de 2006, por que nosso governo foi tão omisso numa questão importante como essa? A resposta é que nos países emergentes a necessidade de atrair capitais é de tal porte que até mesmo o bom senso é atropelado pela afoiteza.
Aquilo que parece óbvio nas nações mais avançadas, nos países emergentes, acaba transformando-se em programa de governo, naturalmente apenas após anos de caos e de prejuízos causados aos consumidores.
Antes que os defensores da privatização a qualquer preço comecem a me chamar de saudosista da estatização, quero deixar claro que sempre defendi, e continuo a fazê-lo, a saída de empresas estatais de setores que em teoria funcionam melhor nas mãos da iniciativa privada. É o caso das telecomunicações e da energia elétrica, dentre outros.
Isso, todavia, não significa fingir, como têm feito os entusiastas da privatização a qualquer preço, que tudo vai bem com as novas concessionárias dos serviços públicos. Um bom indicador de desempenho dessas companhias recentemente privatizadas nos é dado pelas colunas de reclamações dos jornais e pelos noticiários de rádios e emissoras de televisão. Creio mesmo que uma medida sábia das empresas seria a criação dos mandamentos comportamentais, operacionais e de eficiência e divulgá-los, num processo de auto-regulamentação espontânea.
Em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja, datada de 30 de junho passado, o consultor do governo alemão na privatização de várias estatais da ex-Alemanha Oriental, Roland Berger, diz, dentre outras coisas, que o governo brasileiro deveria exigir programas de geração de empregos de empresas que compram estatais. É o mínimo, não?
Questionado sobre se as privatizações têm sempre que resultar em demissões, Berger foi bastante claro: Na Alemanha, cada comprador tem não apenas de fazer uma oferta, mas também apresentar uma idéia clara de seus objetivos para a empresa; quanto vai investir, que tecnologias vai usar e, principalmente, quais seus planos de geração ou manutenção de empregos.
Mas o que fez o governo brasileiro? Simplesmente ignorou essas questões básicas em nome da necessidade urgente de captar recursos estrangeiros. Pior ainda: esqueceu-se de incluir no inexistente caderno de encargos aos pretendentes das estatais a exigência essencial da manutenção, no curto prazo, e da melhoria, no longo prazo, da qualidade dos serviços prestados aos usuários.
Em vez disso, optou pela criação de agências públicas que não passam de novos cabides de empregos de luxo e bem remunerados.
Candidatos a cidadãos, mas contribuintes plenos de países ditos emergentes e apressados, só nos resta cobrar por meio da mídia e das futuras Ongs desses setores que o governo seja bem mais exigente nas próximas privatizações. Até porque ele estará se desfazendo de um patrimônio construído ao longo do tempo com os recursos dos contribuintes.
As privatizações são parte de um processo saudável para o Brasil, conclui o consultor alemão Roland Berger, mas que incluiu alguns erros. Está na hora de corrigi-los.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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