Privado ou público?
Privado ou público?
Arlete Salvador
Suponhamos que não tenha havido má-fé por parte das autoridades econômicas no socorro ao Banco Marka. Nem na maneira como foi feita a desvalorização do real. Todas as decisões tomadas naqueles momentos, acredita-se, tiveram como objetivo preservar a política cambial, mesmo que ela tenha sido modificada duas vezes num curto espaço de tempo. Essas mudanças, aliás, é que teriam exigido rapidez nas delicadas decisões e avaliações econômicas, no calor da confusão do mercado financeiro. Suponhamos, para não crucificar ninguém, que não tenha havido privilégios pessoais ou informações de bastidores somente para alguns.
Saindo do terreno das intenções, fica-se nos fatos. A operação de socorro ao Banco Marka causou prejuízo ao País de R$ 1,5 bilhão. A desvalorização do real permitiu que um grupo reduzido de bancos tivesse lucros estratosféricos, em detrimentos de outros e seus clientes e do próprio País, de novo, que pagaram a conta. São fatos, comprovados por números, nem o Banco Central os nega.
Suponhamos agora que as autoridades econômicas trabalhassem na iniciativa privada. O que aconteceria com elas se tivessem de explicar aos donos do banco que, com a melhor das intenções e boa-fé, jogaram pela janela R$ 1,5 bilhão e garantiram aos concorrentes o melhor resultado financeiro de todos os tempos? Resposta fácil: estariam todos no olho da rua, sem necessidade de CPI, investigação policial e direito de permanecer em silêncio.
Que banqueiro privado seria tão condescendente com seus funcionários, protegendo-os e poupando-os de desgastes e humilhações nessa hora? Nos bancos privados não se trabalha com intenções. O que conta são os resultados alcançados no final de cada mês. As metas atingidas, o lucro obtido. Não há problema nisso - é da essência de seu negócio. Será que o megainvestidor George Soros perderia R$ 1,5 bilhão de um dia para outro e ainda manteria a calma e o cavalheirismo? Difícil acreditar. Cabeças rolariam.
Pode-se alegar que o Banco Central e o Ministério da Fazenda não são instituições privadas e têm outros objetivos, como implantar e manter uma política cambial e garantir a saúde do sistema financeiro. Funções nobres, é verdade, mas nem de longe conflitantes com as da iniciativa privada. O Banco Central também é o responsável pelas reservas do País. Tem ali a soma da riqueza de 150 milhões de brasileiros. É como se toda a população tivesse uma poupancinha depositada no BC. É dever do BC, portanto, cuidar dessa grana.
É interessante notar que os maiores defensores da iniciativa privada ignoram completamente as regras da iniciativa privada quando ocupam posições no setor público. Ou será que privatizar e deixar o mercado decidir o jogo é só para os outros? Então seria o caso de avisar os donos do dinheiro.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





