Prisão quase lotada
A cada dia, o Brasil assiste a mais uma canetada do juiz Sérgio Moro e à chegada de hóspedes ilustres à capital paranaense. Virou um desfile tétrico de corruptos e corruptores a caminho da "prestação de contas". A busca por gente cada vez mais ilustre, chega até a ofuscar a extraordinária importância do gesto em si e a gerar certa ansiedade, para que o "seu corrupto preferido" seja preso! A Polícia Federal e o Ministério Público Federal cumprem o seu papel e a avalanche de gente enriquecida nas franjas do poder, com o dinheiro público, se mostra a cada dia maior.
Pobre Brasil que faz de mórbidas e decadentes situações, espetáculos carnavalescos e beira à barbárie, ao exigir justiça rápida e sumária para os malvados de plantão! Na Idade Média eram as bruxas e, posteriormente, até hoje, em alguns países se queimam espantalhos de Judas. Assim se alivia um pouco a sede de justiça e de reposição da verdade dos fatos. O país, sedento da virada de página da sua história, esquece que a prisão de alguns criminosos não encerra nem de longe um processo que encontrou na Lava Jato o seu principal combustível. Aliás, as prisões já abarrotadas por ladrões de galinha, alguns à espera de julgamento, não comportariam os que teoricamente são esperados nessa faxina da propina, a que tradicionalmente chamamos de corrupção!
Não penso que as agressões físicas e verbais aos já presos e a outros potenciais, seja sinônimo de indignação contra a situação que os gerou e de que eles se beneficiaram. Antes fosse! Vejo com tristeza, que mais uma vez se pensa ingenuamente que pessoas encarnam o mal e, que nos livrando delas, assim teremos sol nos acariciando no longo inverno da crise que atravessamos! Enaltecer o juiz Moro como literalmente salvador da pátria, embora tudo que dele se diga sobre o seu desempenho profissional seja verdade, também não denota necessariamente nenhum compromisso com um Brasil pós "República de Curitiba"! O Brasil corre o risco de ficar enxugando o gelo depois que todos os corruptos cumprirem as suas penas.
É lastimável uma cena em que uma senhora sai agredindo o ex-presidente da Câmara, no aeroporto do Rio. A reação dos que viram e aplaudiram me preocupa. Será um povo querendo fazer justiça com as próprias mãos? Será ainda, apesar de tudo, desconfiança da nossa Justiça? Será a demonstração de um modus operandi popular a ser copiado e virar hit no Brasil? O país em que habitamos não pode resvalar para práticas que nunca nos foram familiares. Se os políticos acusados não têm vergonha de transitar em público, vejamos como vai ser seu comportamento atrás das grades. Mas não desçamos ao seu nível!
O sistema político apodrecido, que não resiste às delações premiadas já feitas e às que virão, vai precisar de muito mais do que uma Lava Jato ou desfile de corruptos para a prisão para ser transformado. A indignação legítima deve ser dirigida contra o sistema; contra a cultura; contra nós mesmos, que colocamos no poder homens sem caráter algum! Um povo sem indignação, é omisso na construção da sua história, mas um povo que apele para a barbárie pode destruir peças importantes da mesma. Renunciemos ao imediatismo, que coloca em xeque as premissas mais básicas do sistema jurídico moderno. Combatamos as raízes da corrupção que, como tentáculos de um polvo monstruoso, invadem as bases da sociedade e destroem os princípios mais sagrados em que ela assenta. Nos comprometamos com um futuro de modernidade e de justiça social que será a melhor segurança que deixaremos para as novas gerações. Trabalhemos com afinco para que o Brasil não seja a vergonha da lanterninha dos países do Brics, quando se trata de crescimento e superação da crise.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na arquidiocese de Londrina
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