PRIORIDADE ABSOLUTA Educação tem pressa
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sábado, 10 de março de 2012
Fernando Rocha Faro <br>Reportagem Local 
Valorizar o professor e a escola. Esse é o caminho aponta por Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos pela Educação para melhorar a qualidade da aprendizagem do aluno brasileiro. Para isso, aponta ela, é essencial pagar melhores salários para os educadores e, principalmente, colocar a escola no centro das discussões da sociedade.
''O que a gente vê é que há muitos casos de descaso com a própria escola, com o ambiente escolar, com esse ambiente de aprendizagem. Temos que resgatar o valor social que é conferido à escola, como um espaço de paz, de convivência, de respeito às diferenças e ao próximo. Um espaço de colaboração e de solidariedade'', aponta ela.
Para atingir esse e outros objetivos, o Todos pela Educação na articulação e incentivo de políticas e projetos que melhorem a qualidade da educação no País. Mas Priscila Cruz alerta que o País está muito atrasado nesse setor essencial para atingirmos o pleno desenvolvimento.
''O objetivo é obter resultados mais efetivos e também mais rápidos. O que a gente vê é que o Brasil caminha a passos muito lentos para atingir o objetivo de assegurar que todo mundo tenha educação de qualidade. Mas agora temos é que recuperar o tempo perdido. É pagar a dívida do passado, avançando para o futuro. Essa é a nossa missão de hoje'', aponta.
Um exemplo do descaso é a discussão em torno do piso nacional do magistério, definido em R$ 1.451 para este ano. O valor não é seguido por nove Estado, incluindo o Paraná, que pagaria R$ 1.233.
Qual é o salário ideal para o professor na avaliação da Todos pela Educação?
A média dos que os outros profissionais da mesma área ganham. Hoje o professor ganha bem menos do que isso, cerca de 40% menos do que a média dos profissionais com formação superior. Essa questão da média também é perigosa porque a média de dois com dez é seis e o salário pode ser de dois ou de dez. Deveria, no mínimo, se equiparar à média de outros profissionais de formação superior, como previsto no Plano Nacional de Educação.
Na verdade, o que acontece? A profissão está desvalorizada! A gente sabe de pessoas que escolheram fazer pedagogia e são questionadas por não terem optado por medicina, por exemplo. Conheço gente formada em pedagogia que a família inteira fala: ''Mas é tão inteligente, poderia ter feito medicina ou engenharia. Nossa, é tão esforçada, poderia ter feito direito.''
O que falta para que o piso nacional para o magistério saia do papel e seja efetivamente colocado em prática?
O que a gente tem que fazer é exigir que o governo cumpra o preceito constitucional de investir em educação. Mas os governantes têm que cumprir também a Lei de Responsabilidade Fiscal. Não podem descumprir uma para cumprir a outra. Está na Constituição que é uma responsabilidade da União complementar com recursos quando o município não tem capacidade para suprir a educação. Então a União vai ter que fazer o seu papel de suplementação.
Por que o desempenho dos alunos brasileiros em avaliações internacionais fica sempre tão abaixo dos países de educação de melhor qualidade?
A política educacional é supercomplexa. Não é possível imaginar que exista uma bala de prata, uma política que vai dar conta de resolver principalmente essa questão da aprendizagem dos alunos. Hoje a gente está pagando uma dívida de anos, não estamos nem avançando, estamos apenas pagando uma dívida das gestões anteriores. Então temos que colocar em prática um conjunto de políticas públicas bem elaboradas e, principalmente, bem implementadas, até porque o papel aceita qualquer coisa, mas temos que implementar políticas que realmente tenham um acompanhamento de resultados, que promovam correção de rumo, para ver o que está errado e o que precisa ser corrigido.
Temos que investir na formação dos professores. Não adianta nada atrair os melhores alunos do ensino médio para a carreira de pedagogia, para a carreira do magistério ou para a licenciatura com a formação que temos hoje. A formação hoje é muito teórica, excessivamente isolada do que realmente está acontecendo. O mais importante é que o aluno aprenda.
Mas a avaliação do trabalho dos professores é importante. Temos que fazer avaliação, mas para corrigir os rumos. A avaliação tem que ser feita de forma a impactar a gestão educacional. A avaliação externa tem que passar a ter significado pedagógico, de gestão.
E outra coisa que precisamos do forma urgente é aumentar o tempo que o aluno fica na escola. Hoje o aluno brasileiro fica muito pouco tempo na escola. Só vamos conseguir dar conta de cumprir o objetivo de que todos efetivamente aprendam se os alunos ficarem mais tempo na sala de aula.
O País vai conseguir cumprir a meta de colocar todas as crianças na escola? Em quanto tempo? E os outros objetivos definidos pelo Movimento Todos pela Educação?
Sou otimista em relação a essa meta, muito por conta da Emenda Constitucional 59, de 2009, que tornou obrigatório o atendimento escolar de 4 a 17 anos. Eu acho mais difícil e até improvável a implantação das metas seguintes, a dois, a três e a quatro. A gente está muito longe de garantir que toda criança de 8 anos esteja alfabetizada, como mostrou a Prova ABC, que realizamos no ano passado em parceria com o Instituto Paulo Montenegro, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e a Fundação Cesgranrio, mais longe ainda de ter todos os alunos com o aprendizado adequado a sua série e a meta quatro, que é a meta da conclusão, acaba sendo prejudicada porque, ao não atingirmos as metas anteriores, a meta quatro fica comprometida. Se o aluno não está na escola, não se alfabetizou ou não aprendeu, ele acaba não concluindo o ensino médio na idade correta.
Como foi criado e como funciona o Todos pela Educação?
O Todos pela Educação foi criado no momento em que várias pessoas de vários setores, de várias atividades, de várias regiões do País, começaram a se engajar em um projeto nacional que, de alguma forma, ajudasse o País a resolver sua principal questão, a educação. Porque o que a gente coloca é que o pior erro coletivo que o Brasil cometeu foi o descaso com a educação. A gente paga essa conta de diversas formas, como com um nível de violência altíssimo e com baixa participação social. A gente sente esse reflexo no desenvolvimento econômico, no custo de vida.
A educação é a base das demais políticas. Então, o movimento tenta, de certa forma, ajudar a consertar esse erro. A gente atua de diversas formas, mas principalmente com produção de pesquisa e de materiais técnicos. Temos também a parte de comunicação, com a imprensa e os veículos de massa, realização de campanhas e redes sociais. E a parte de articulação política e institucional, que é desde criar sinergia, de melhorar a articulação entre os diferentes parceiros que podem fazer com que a educação melhore.
O objetivo é obter resultados mais efetivos e também mais rápidos. O que a gente vê é que o Brasil caminha a passos muito lentos para atingir o objetivo de assegurar que todo mundo tenha educação de qualidade. Mas agora temos é que recuperar o tempo perdido. É pagar a dívida do passado, avançando para o futuro. Essa é a nossa missão de hoje.
Como os professores devem lidar com casos de violência nas escolas, que parecem ser cada vez mais comuns?
A gente tem que valorizar o professor e a escola também, o aprender e tudo mais. O que se vê é que há muitos casos de descaso com a própria escola, com o ambiente escolar, com esse ambiente de aprendizagem. Temos que resgatar o valor social que é conferido à escola, como um espaço de paz, de convivência, de respeito às diferenças e ao próximo. Um espaço de colaboração e de solidariedade. E de aprendizado. Basicamente é resgatar o valor que a escola tem na sociedade.


