Nem bem o País se acalmou, depois da tormenta eleitoral, e já começa a se energizar novamente para a próxima grande batalha na arena de 2002. Os primeiros tiros são disparados pelas oposições, confortadas com resultados que exibem um significativo avanço em relação ao último pleito. É fato que o PT vive seu melhor momento político e imagético. A hipótese de uma vitória oposicionista nas eleições presidenciais nunca esteve tão próxima da realidade. E é exatamente essa euforia que está municiando os primeiros tiros das oposições. Tiros que são trocados entre os próprios caciques oposicionistas.
Ciro Gomes foi o primeiro a atirar, demonstrando, com argumentos fortes, que as oposições deveriam caminhar juntas. Ciro tem razão. Um único candidato oposicionista teria condições de aglutinar forças capazes de desbancar a situação. Ocorre que esse mesmo argumento é o que dá respaldo a uma candidatura única das oposições, defendida pelo presidente da Câmara, Michel Temer. Ou seja, o resultado eleitoral de 2000 aponta para um embate entre a oposição e a situação, cada qual com candidaturas unificadas. As vaidades, porém, ofuscam a projeção. Pois o PT, que obteve uma baciada de votos por todo o País, apesar de não ter reelegido 47% de seus prefeitos, rejeita a candidatura única.
Como se sabe, o Partido dos Trabalhadores sonha em colocar seu candidato na cadeira do Palácio do Planalto, seja ele Lula, Genoino, Tarso Genro, Suplicy ou Cristovam Buarque. E suas razões são plausíveis. Seu eterno candidato, Lula, conserva a base histórica de 30% dos votos. Ciro aparece em segundo lugar. Sabe-se, porém, que o índice de rejeição a Lula continua alto. Teme-se que não ultrapasse seu índice histórico, sendo tragado pelo sensação de mesmice que passa para o eleitorado. Lula não encarna o sentido do novo e, apesar de ser o maior trunfo do partido, hoje, não é o melhor candidato. Ciro Gomes sabe disso. Se trabalha com a hipótese da candidatura única, é porque acha que só ele, mesmo, tem condições de levar a parada. Situa-se mais no centro social, tem discurso, capta bem o sentimento dos grupamentos contrariados da sociedade e exibe experiência administrativa. Precisa apenas administrar a exacerbação verbal. Como diz o ditado, o peixe morre pela boca.
Itamar tem poucas chances. Está mal no governo e é um destemperado e histriônico. Tem certo carisma, que expõe naquela forma descomprometida de expressão, nas estocadas em Fernando Henrique, na encarnação de valores nacionalistas. Mas a falta de equilíbrio corrói a necessária liturgia para o cargo. De Brizola e Arraes não se pode esperar muita coisa, a não ser a união em torno de uma candidatura mais comprometida com a modernidade. A moldura oposicionista poderá comportar, ainda, a figura de Garotinho, que tem dois anos para se recuperar do tombo que levou no Rio de Janeiro. César Maia poderá ser, a partir do Rio, o grande cabo eleitoral de Ciro no Sudeste.
Se vingar a tese do PT, a união das oposições virá apenas no segundo turno. É o que deseja o situacionismo, que será motivado, cada vez mais, a integrar suas bases. A hipótese de candidaturas isoladas do PSDB, PMDB, PFL e PPB torna-se remota, mesmo diante da possibilidade de rachadura da base aliancista, provocada pela briga pelo comando das duas casas congressuais. A maioria das apostas indica um final feliz naquela contenda, com a repartição homogênea dos espaços e poderes e uma fórmula que evite perdas para ACM e Jader Barbalho. A tese de um candidato da aliança ganha fôlego. Pelo conceito, qualquer partido poderá comandar a chapa majoritária, não necessariamente o PSDB, apesar deste partido exibir os nomes considerados com maior densidade conceitual.
Dá para se apostar num perfil que agregue os valores da novidade, assepsia política, ética, moralidade, seriedade, experiência, preparo, competência de comando, mobilização social. Que perfil governista junta esses fatores? O candidato não precisa ser muito conhecido. Sabe-se que a mídia massiva das eleições é capaz de tornar um candidato tão conhecido como banana. Precisa, isso sim, ter densidade. O chamado recado das urnas mostrou que o eleitor, além de mais racional, optou pelo conceito de moralização da vida pública. Esse conceito haverá de estar atrelado a qualquer candidatura. Quanto ao discurso, a indicação parece óbvia: segurança e desenvolvimento (emprego) estão na vanguarda das demandas sociais. Não se pode deixar de lado um fator-chave: a popularidade de FHC nas proximidades do pleito. Ele poderá ser o eleitor decisivo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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