Primeiro desarmar as cabeças

Walmor Macarini
O projeto do senador Renan Calheiros de tornar proibitiva a venda de armas de fogo, no Brasil, demonstrou como há amantes delas, entre nós. A seção de cartas dos leitores e artigos publicados neste jornal têm dado a medida do fascínio que tantos cidadãos brasileiros devotam pela posse e uso de uma arma. A tomar pelo índice dos que se manifestam a favor do armamentismo e dos que são contra ou ficam em silêncio, os belicistas ganham com larga vantagem.
Por que é assim? Porque há um componente guerreiro muito ativo dentro das pessoas. Mesmo que não houvesse marginais a combater, essas pessoas quereriam possuir uma arma, e dispará-la, contra um alvo fixo ou, quem sabe, contra um animal, uma pessoa. O homem, ao longo da história, foi sempre um bandido perante a caça indefesa, e caçar tem sido para ele mais um esporte que uma necessidade de subsistência. Ainda assim é, em nossos dias. O que são as guerras senão uma forma de caçada? O homem só não mata mais, porque contido pelo temor da punição.
Há quem goste da arma apenas para tê-la e há os que a acariciam como uma criança acaricia um boneco de pelúcia. Há quem as coleciona, outros a penduram na parede como ornamento, e cada um destes gostaria de pegar todas aquelas ‘‘jóias’’ (como as denominam) e sair disparando... E dando tombo em algum alvo, de preferência vivo...
Quem ama uma arma carrega dentro de si o sinistro desejo de utilizá-la. Ou não a teria consigo. O apaixonado por arma projeta-se no projétil. Vislumbra o alcance de seu próprio poder no alcance da bala.
Assim como aquele que, não conseguindo, pela própria competência, fazer ruído e projetar a força pessoal, veste-se com a couraça do automóvel e, protegido pela estrutura metálica e sentindo a potência e a vibração do motor em seu corpo, dispara em grande velocidade e transforma-se na máquina, movido a cavalos de força, como se o motor fosse seu próprio organismo.
Quem se defende corre o risco de também matar, eis que está armado. Com certeza muita arma hoje em mãos de bandidos era arma que estava em poder de cidadãos, e foi tão fácil o bandido apossar-se dela que, nessa hora, a arma não protegeu o dono... É verdade que o civil tem armado o marginal, embora hoje seja possível a qualquer um comprar uma arma no contrabando, com facilidade, e arma muito sofisticada.
É direito do cidadão defender-se, defender a família e defender o patrimônio, até porque é do instinto natural e da lei da legítima defesa, mas há muito ideal armamentista no ar. Essa corrente cria uma atmosfera belicista, entra no inconsciente coletivo e reforça ainda mais a própria corrente. É assim que começam as guerras, porque elas já estavam na cabeça de muitos, individualmente, e cristalizaram-se no inconsciente das massas.
A verdade é que são pouquíssimos os casos em que alguém, só pelo fato de possuir uma arma – no coldre, no carro ou em casa – tenha se livrado do marginal. O que aconteceu com mais frequência foi o inverso: o portador de arma morrer por causa dela e por tentar sacá-la no momento do assalto.
A marginalidade não será contida pela força das armas mas pela modificação dos sistemas sociais e do próprio indivíduo. A sociedade tem produzido seus próprios bandidos.
Todos os delinquentes nasceram criancinhas lindas, para alegria dos pais e dos avós, e no entanto transformaram-se em marginais. Isto é que temos que resolver primeiro, antes de nos armarmos até os dentes.
Amai-vos uns aos outros – alguém nos ensinou – mas entendemos armai-vos...
Certamente que não iremos dar um beijo na boca do bandido, mas se para eliminar a existência dele tivermos que usar armas, então seremos iguais. Pior, porque nós somos os cidadãos conscientes – não é assim que nos qualificamos? – eles não! Ora, um ‘‘homem de bem’’ não mata!
Quem nunca foi assaltado não é porque tinha uma arma, eis que o assaltante não sabia disto.
Se ficamos temendo muito o bandido nós o atraímos, porque temos uma arma em nosso poder e ela está em nossa mente. Assim acabamos entrando na mesma frequência do bandido e então ele aparece... Um temendo o ataque, outro propenso a atacar, e eis aí montado o cenário.
Cadeias não detêm a proliferação da delinquência, pena de morte também não. Os caminhos são outros e é sobre ele que temos que nos debruçar se queremos nos salvar como sociedade. E todos nós sabemos quais são os caminhos. Com toda certeza eles não passam pelas armas.
Temos que salvar aquele que se transformou em bandido, não eliminá-lo. Tudo o que se elimina pela violência traz de arrasto o estigma de repetir-se, e essa conta nunca se fecha.
Devemos começar por eliminar idéias de ódio, de revide e de ganância, e não sermos nós os ladrões dos direitos daqueles que operam conosco. Partilhar um pouco mais, com eles, o resultado econômico do trabalho de todos, será evitar que alguém nos roube pela porta dos fundos.
Já bastam as armas que carregamos em nossa mente, sempre em atitude de ataque e defesa, no dia-a-dia de nossas vidas; então não precisamos nos armar ainda mais. Temos primeiro que desarmar nossas cabeças, que aí a paz social virá por acréscimo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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