Os pais saem para trabalhar logo cedo e passam na escolinha para deixar o caçula. Gostariam de acompanhar mais de perto o desenvolvimento de seu filho, mas não é possível. Lucas ainda tem cinco anos, mas seus pais já estão um pouco preocupados, pois ele demonstra certa dificuldade para relacionar-se com outras crianças; sem falar na falta de concentração, pois parece estar sempre ''no mundo da lua''. De qualquer forma, apreciam a escola e têm grande carinho pela tia Beth, que adora o Lucas e todas as outras crianças. Nasceu para aquilo. Nem parece que não tem diploma e que, há menos de um ano, trabalhava em uma fábrica que faliu. A tia Beth também anda preocupada com o Lucas. Percebe que ele fica meio isolado e não presta atenção nas brincadeiras que ela inventa. Mas não sabe o que fazer. Traz sempre um lanchinho a mais para ele, senta-se junto e tenta conversar. Faz o que pode...
Os pais de Lucas e a tia Beth têm em comum o desejo de fazer a coisa certa. A educação brasileira tem um desafio: dar a essa professora formação, estrutura e apoio pedagógico para que possa organizar um espaço educativo para aquela criança.
Infelizmente, algumas pessoas ainda pensam na educação como um espaço onde os pais podem deixar seus filhos em segurança enquanto trabalham. Ao mesmo tempo, os responsáveis pela contratação dos profissionais também parecem acreditar que o simples fato de uma pessoa ter paciência e ''jeito'' para lidar com crianças já a qualificam para a vaga de professora. Muitas outras pessoas desconhecem a importância desse período do desenvolvimento infantil. Na primeira infância, vivendo em um ambiente enriquecedor para a sua aprendizagem, a criança descobre, cria e se expressa por meio de múltiplas linguagens e brincadeiras, construindo conceitos e conhecimentos, exercendo o direito de brincar.
No Brasil, significativos avanços nos dispositivos legais têm garantido a educação infantil como um direito. O Plano Nacional de Educação Infantil estabelece que as ações educativas voltadas a esse público devem ser planejadas de maneira a resguardar os valores socioculturais dos grupos a que pertencem, assegurando seu desenvolvimento integral em todas as dimensões.
Porém, existem concepções antagônicas sobre a infância. Alguns adultos consideram a criança ingênua, inocente e graciosa. Outros entendem a criança como um ser que precisa da interferência do adulto para se tornar completo e perfeito. Mas a infância não pode ser caracterizada como um tempo de preparação para coisa nenhuma - e sim como um tempo em si.
A criança é sujeito de direitos (não um ser de direitos e deveres) que precisa ser respeitado e valorizado em cada momento de seu desenvolvimento. Até os seis anos de idade, ela busca conquistar sua autonomia e desenvolver seu espírito criativo, ou seja, adaptar-se ao ambiente social. Para sua inserção no grupo social, o aprender pelo brincar é fundamental.
É preciso repensar a distinção que muitas vezes se faz entre criança e aluno, brincadeira e aprendizagem, curiosidade e indisciplina. Planejar espaços educativos para atender aos direitos das crianças significa mais do que conhecê-las. Por isso, é necessário qualificar e valorizar os profissionais que se dedicam à educação da primeira infância e implantar políticas educacionais adequadas à faixa etária.
O processo de formação do profissional pode ocorrer no próprio ambiente de trabalho, o que permite a construção do conhecimento sobre os saberes infantis. E deve ser uma iniciativa do educador, que está motivado a produzir novos saberes, provenientes de sua própria experiência. Afinal, se a linguagem que a criança utiliza para explorar o mundo contempla o brincar, é fundamental oferecer ao profissional oportunidades que permitam a compreensão e valorização da expressão lúdica.
O direito à educação expresso na Declaração Universal dos Direitos da Criança, na Constituição Brasileira, na LDB e no Estatuto da Criança e do Adolescente só poderá ser garantido se a sociedade assumir a sua responsabilidade.
O desafio é descobrir um caminho que leve à organização de projetos de trabalho com parcerias. A criança pequena precisa de um professor prático, reflexivo, pleno e múltiplo, que possa caminhar junto, sabendo ouvir, brincar e compartilhar com entusiasmo todos os momentos vividos na escola.


- VERA LÚCIA ANSELMI MELIS PAULILLO é coordenadora do Núcleo de Educação da Fundação Orsa e especialista em formação de professores e educação infantil em São Paulo

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