Primado equívoco
Não me esqueço de uma passagem ocorrida quando entrevistava o então governador Ney Braga na TV Paraná, à época pertencente à cadeia dos jornais e emissoras associados de Assis Chateaubriand. O nosso governador aderira à campanha das reformas de base de João Goulart e defendia a cogestão nas empresas, isso é participação dos trabalhadores nas decisões, o voto dos analfabetos, enfim tudo aquilo que ainda se constituia em tabu.
À certa altura, Ney Braga, que costumava fazer o discurso da moralidade com a mesma frequência do PT dos nossos dias, perguntou por que num dos programas eu havia dito que esse primado era equívoco, afinal isso tinha que ser avaliado no andamento das coisas e do fazer político, que implica num pragmatismo normalmente oposto aos regramentos éticos até pela distância existente entre teoria e praxis. Arrematei: se o senhor defende mudanças como a reforma política, a agrária, da empresa está desejando alterações que colidem com a moral estabelecida, vale dizer com a ordem dominante.
LINCHAMENTO A onda moralista beneficiou muitos políticos, dentre eles o maior de todos do Paraná, Ney Braga. Ele fez uma carreira em grande parte em cima da suposta improbidade de Moisés Lupion num tempo em que era moda apontá-lo como um exemplo correlato, nacionalmente, ao de Adhemar de Barros.
No governo neysta, o secretário de Justiça, Rubens Requião, agiu com a veemência de um Inspetor Javert (aquele da obra de Victor Hugo que foi a todos os extremos na perseguição a Jean Valjean que roubara um pão) e levantou peças documentalmente fortes como a que revelava que o Procurador do Paraná no Rio, Libino Pacheco, teria colocado dinheiro da campanha contra a hanseníase na conta bancária do governador. Dá para imaginar o horror de ligar esse tipo de apropriação com uma doença, aquele tempo tida como maldita. Outra acusação a de que transformara uma praça pública de Paranaguá em terra devoluta, o que se fizera por artes de um falsificador, também figurava nesse dossiê.
Ora Lupion é um dos exemplos do self made man. Era um dos homens mais ricos do Brasil (dono de dezenas de cartas patentes, inclusive a que daria origem ao Bamerindus, ao Banco da América entre outros, de indústrias, de fazendas e até mesmo de uma companhia de navegação internacional) quando entrou na política e rigorosamente pobre quando dela saiu. Nos nossos dias assessores governamentais, ocupantes de postos de segundo escalão, mal resistiriam a uma verificação de sinais exteriores de riqueza se isso fosse feito com um mínimo de critério. A injustiça contra Lupion serve de alertamento para os que açodadamente se atiram na cruzada moralista.





