Em 2050, a população idosa brasileira será de 34,3 milhões, três vezes mais do que o número atual, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante dessa previsão, surge uma necessidade ainda maior de resolver grave problema do país: o custo da Previdência Social. Em entrevista exclusiva à FOLHA, o jornalista econômico britânico Brian Nicholson - que mora há 31 anos no Brasil e é autor do livro ''A Previdência Injusta'' - propõe um benefício universal, sem contribuição, e no valor de um salário mínimo, acabando com a disparidade de aposentadorias que vão de R$ 350 até R$ 24 mil.

De quem é a responsabilidade pela situação da Previdência no Brasil?
É da sociedade como um todo, mas principalmente dos que têm mais influência, a classe média, as classes profissionais. E eles não podem escapar desta responsabilidade sobre a desigualdade da Previdência Social.

A Previdência está falindo?
A Previdência, somando servidores, militares, todo mundo, não está à beira da falência. Há alguns anos estava em um caminho muito crítico, mas as reformas dos governos FHC e Lula amenizaram problemas graves como o da área fiscal. Mas o problema principal hoje é que ela reforça a desiguldade. Tem um lado positivo de ajudar milhões de idosos pobres, mas também tem um lado muito nefasto de pagar benefícios altíssimos, que embutem um grande subsídio para um grupo menor de pessoas privilegiadas. Para servidores públicos, este benefício pode chegar a até R$ 24 mil por mês, enquanto o pobre recebe R$ 380. É 65 vezes mais, uma diferença muito grande para um sistema público de uma sociedade democrática. Previdência não causa desigualdade, mas reforça a desigualdade.

Uma reforma completa é inevitável? Por onde passa a solução do problema?
Em primeiro lugar, é preciso mudar a Constituição para eliminar o direito adquirido para benefícios que embutem fortes privilégios. A partir daí, você teria um benefício universal, sem contribuição, de valor próximo a um salário mínimo para todos, desde o pedreiro até o presidente. E ninguém recebe antes dos 60 anos. Além disso, teria um segundo benefício - também pelo INSS - baseado nas contribuições que cada trabalhador faz ao longo da vida. Quem contribui mais, recebe mais, eliminando subsídios e privilégios. Pelos meus cálculos, aproximadamente 20 milhões de pessoas teriam benefício maior enquanto três milhões teriam o benefício reduzido.

Com a mesma quantidade de gastos ou saneando a Previdência?
Reduziria os gastos, liberando algo em torno de R$ 12 bilhões para reforçar o ensino fundamental. A longo prazo, a única maneira de uma sociedade avançar e reduzir a desigualdade é a educação.

Não seria muito complicado mexer com os interesses da população beneficiada atualmente?
Vamos ser muito honestos. Se eu tivesse uma alta aposentadoria, não gostaria de abrir mão dela. Ninguém quer. Mas nós temos que lembrar que eles são uma minoria e o país é uma democracia. Estamos falando de um sistema que vai beneficiar muito mais pessoas do que prejudicar outras. É uma redistribuição de renda em um dos países mais desiguais do mundo. A única maneira políticamente possível de fazer isso é mexer com todos os grupos privilegiados ao mesmo tempo. Se os professores tiverem que abrir mãos dos privilégios sem fazer o mesmo com militares, juízes, eles vão reclamar. Mas se você pega a sociedade como um todo e faz uma Previdência verdadeiramente republicana, igual para todo mundo, a resposta é diferente. Sem atacar os privilégios, qualquer melhoria será pequena e lenta. O Brasil precisa atacar com mais agilidade seus grandes problemas sociais.

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