Todos os presidenciáveis com chances de suceder Fernando Henrique Cardoso escapam pela tangente quando o tema em pauta é o nó da Previdência Social. Lula, Ciro Gomes, José Serra e Garotinho passam longe de promessas objetivas, preferindo deixar a impressão de que o rombo da Previdência Social vai ficar, em seus eventuais mandatos, mais ou menos como está.
Contra os números, sobram poucos argumentos. O INSS, com cerca de 88% dos beneficiários da Previdência, todos do setor privado, consome aproximadamente 55% do valor total dos benefícios. O setor público, com 12% dos beneficiários, recebe 45%. Trocando em números absolutos: no ano passado, cerca de 20 milhões de aposentados do setor privado receberam R$ 75 bilhões, enquanto 2,6 milhões de funcionários públicos levaram R$ 52 bilhões (tendo contribuído com apenas R$ 6,6 bilhões).
Se não bastasse o vício de origem do sistema que cria duas categorias de cidadãos, os de primeira e segunda classe há ainda a retração do mercado formal de trabalho. Hoje, o Brasil conta com 27 milhões de trabalhadores formais e 40 milhões de informais. Convém lembrar que esse exército de trabalhadores marginais, apesar de não recolher um centavo para a Previdência, demandará do Estado na velhice as mesmas providências dos demais, como assistência médica e amparo social. Como o Estado imprevidente financiará essa conta?
Entre as expressões usadas pelos presidenciáveis para explicar porque não pretendem meter a mão no vespeiro, a mais comum é a do ''direito adquirido''. Segundo eles, não há como mudar o sistema que dá ao servidor público o direito de se aposentar com salário integral, regalia negada ao do setor privado. O que parece passar despercebido é que, a esse ''direito adquirido'', corresponde um ''dever imposto'' a uma multidão de trabalhadores do setor privado, que salda a fatura ao longo de toda a sua vida profissional pela via do desconto previdenciário corrosivo e, depois, na aposentadoria devolvida aos pedaços.
No ano passado, o déficit da Previdência bateu em R$ 12,8 bilhões. Este ano, deve superar R$ 16,5 bilhões. Tanto os que adquiriram direitos como os que herdaram deveres e até os que não se enquadram em nenhuma das situações estão sob a séria ameaça de chegar à chamada terceira idade sem um tostão furado.á Se o governo federal não agir agora, trabalhadores de qualquer calibre formais e informais, públicos ou privados serão todos passageiros da barca furada da Previdência quebrada.
Ruth Meira

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