Nossos governantes desconhecem o adágio acima. É a única explicação para que tratem tão mal a nossa saúde. O novo Estado democrático teve 33 anos para investir em saúde e educação, e não o fez. Ignorou a integração educação-saúde, não aplicando programas apropriados nas escolas, nem fornecendo melhores estruturas para a prática da educação. Se o fizesse, hoje teríamos menos doenças evitáveis e menos pacientes internados por doenças da miséria e da ignorância.
O que a criança aprende na escola, ela pratica em casa, e corrige os pais que agem errado. Constrangidos, passam a agir corretamente.
Práticas de higiene e bons hábitos absorvidos pelas crianças, e a real vontade do Estado em promover a saúde através da integração saúde-escola-família, em poucos anos produziriam uma juventude saudável e bem educada.
A Coreia, destruída pela guerra em 1953, com uma das piores rendas per capita do mundo, em 1960 passou a investir apenas em educação. Vinte anos depois, já exportava tecnologia para o mundo: Samsung, LG, Hyundai, Orion, SK, Daewoo, Kia, entre outras, e possuía um dos três melhores sistemas educacionais do mundo.
Como conseguiram?
E nós? Um país de riquezas naturais infinitas, uma imensidão de terras cultiváveis, a maior bacia hidrográfica do Planeta, e brasileiros ainda passam fome em algumas regiões! Não temos guerras, grandes desastres naturais, e nosso sol brilha o ano todo. Como é possível tanta desgraça?
No entanto, o que o Estado nos oferece? O caos na política e na economia, a corrupção desbragada permeando todos os níveis da República. Pífios investimentos em saúde e educação, sucateamento das instituições, fortalecimento do poder da bandidagem (inclusive a do colarinho branco), impiedosa dilapidação do erário, desmoralização das forças de segurança, falência de dezenas de hospitais, e abandono do povo à própria sorte.
Afinal, que democracia é essa?
Filas intermináveis de pacientes em postos de saúde por doenças evitáveis. Se o Estado investisse em infraestrutura, saneamento básico, educação em saúde nas escolas, veria inverter-se o quadro apocalíptico de hoje em poucos anos. Nossos governantes não governam para o futuro, governam para o presente – o presente deles!
Enquanto crianças brincam na lama infecta de esgotos a céu aberto e montes de lixo se acumulam nos rios urbanos obstruindo tubulações, provocando enchentes e disseminando doenças, no Nordeste, milhões de chagásicos, esquistossomóticos, leishmanióticos, filarióticos, vítimas da malária, dengue, diarreias infecciosas, tuberculose e milhares de crianças desnutridas resistem, obstinadamente, na vã esperança de que um dia serão lembrados. E prefeitos facínoras ainda roubam o dinheiro da merenda escolar!
Como chamar isso de Nação?
A sexualização precoce de meninas, grávidas aos 12 anos, cuja inocência é roubada todos os dias por uma torrente de estímulos sexuais de todo tipo, através de uma poderosa mídia que explora essa via milionária e perversa até a última gota. Novelas que atiram sexo na cara das famílias sem o menor constrangimento. Os reality shows tipo BBB, essas excrescências abomináveis de mau gosto e desrespeito, são as sedutoras serpentes que hipnotizam um público desinformado, exatamente aquele mais vulnerável ao estupor sexual que tais "programas" oferecem. Como combater AIDS, DST, gravidez precoce, abortos, enfrentando essa máquina insana de lavagem cerebral?
Enquanto não houver uma integração entre os ministérios da Saúde e da Educação, com investimentos reais que promovam o desenvolvimento pleno do cidadão, nós continuaremos a amargar os piores índices do mundo em todas as áreas.
Bilhões em impostos, esfolados impiedosamente da pele do trabalhador, desaparecem no sumidouro da burocracia paquidérmica, das mordomias principescas, dos milhares de inúteis barnabés em ultrajantes cabides de empregos. Como podem ter o descaramento de dizer que não há dinheiro para a saúde, educação e segurança? Se não há, é porque roubaram.
Parafraseando Cícero, "até quando, ó Estado, abusarás da nossa paciência?"

PAULO ANDRÉ CHENSO, médico em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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