O psiquiatra Içami Tiba, autor do livro ''Juventude & Drogas: Anjos Caídos'', fala à FOLHA sobre os jovens e as drogas. Seu novo livro orienta como prevenir o uso de drogas, identificar um filho usuário e abordá-lo para iniciar o tratamento.

A violência muito presente entre os adolescentes pode ser considerada uma consequência do uso de drogas?
Sim porque tira a pessoa do seu eixo natural e faz funcionar no submundo da consciência, da lei, da família e da sociedade. Mesmo que haja drogas legais e ilegais, para a consciência não existe diferença. A mente humana funciona de maneira química e o cérebro é prisioneiro da química, que o altera produzindo prazer. Os jovens acham que se dá prazer é bom. Muitas pessoas que fumam maconha dizem: 'Eu fumo porque é bom, dá prazer'. Fazem uma grande confusão entre um critério humano, estudado do bem e do mal e o critério físico, animal e instintivo entre o gostoso e não-gostoso.

Qual é o papel de pais e educadores para auxiliar os jovens a não entrarem no caminho das drogas?
Os pais têm que preparar os filhos para a vida e não para dizer sim ou não às drogas. A educação hoje tem que formar cidadãos. Os pais, os adultos de uma família têm que estabelecer uma forma de vida chamada cidadania familiar, o que é bom para um não pode ser ruim para os outros, têm que praticar em casa o que se espera dele fora de casa. Ele tem que formar dentro de si esse espírito cidadão, é esse espírito que vai dizer a ele o que pode ou não fazer, baseado nele mesmo, essa é a verdadeira educação. Somente colocar limites não é educativo, o verdadeiro limite é a formação e não a proibição.

Algumas pessoas afirmam que as propagandas contras as drogas servem de estímulo para o uso...
Discordo, isso é o medo que os pais têm, assim como acham que se falar sobre sexo está liberando o filho para ter vida sexual. É falta de conhecimento. É necessário discutir e enfrentar o problema.

Como os pais devem lidar com a situação quando descobrem que o filho é usuário de drogas?
Se já são usuários, os pais não foram competentes nem para perceber até chegar nesse ponto, então terão muito menos condições de lidarem sozinhos com pessoas já viciadas. Quando chega a esse ponto, a maioria dos pais quer retomar aquele poder de chefe de família que nunca foram, nem quiseram ser e não vão conseguir ser. Se o filho já é usuário tem que procurar ajuda profissional.

Como prevenir?
Os pais têm que se atualizar e saber que hoje se prepara cidadão. O jovem não pode, por exemplo, xingar a mãe. Xingou alguma coisa está errado, não tem que tolerar, nem engano, nem nota baixa. Imagina: os pais pedem pelo amor de Deus para que o filho seja aprovado, dizem: ''não quero que você seja o primeiro''. Olha que mentira. O pai dá tudo de melhor para o filho e o filho não precisa produzir o melhor que pode e está bom? Que raio de custo/benefício é esse que os pais estão ensinando? O custo/benefício da droga é pouco esforço e muito prazer. Aí que digo que os pais estão educando para que os filhos usem drogas. Os pais precisam se atualizar, ler. Se ele estiver ameaçado de perder o emprego, vai estudar um pouquinho sobre o emprego. Se vai mudar de carreira, vai estudar sobre a nova carreira. Se os filhos são outros, não aqueles que ele esperava que fossem, tem que estudar. Não adianta esperar que com o tempo o filho mude, que a namorada corrija, que arrume um emprego, que seja feliz. Não vai porque não tem estrutura para aguentar isso.

mockup