Na vida comum e na vida pública, moradores de Londrina, empresas, entidades e políticos geralmente escolhem gravar o nome na história com as melhores ações, ideias e práticas. Prestes Maia, Tadeu Felismino e João das Águas são exemplos memoráveis disso.

Prestes Maia, urbanista e ex-prefeito de São Paulo, foi consultor convidado da Secretaria de Obras de Londrina em 1951 e planejou fundos de vale amplos e livres de carros para absorver chuvas e proteger córregos – uma inovação ambiental inédita no Brasil. Isso mesmo: os vales livres de Londrina são um marco no planejamento urbano nacional. Décadas depois, Tadeu Felismino, na presidência do IPPUL, resistiu com firmeza às pressões da construção civil, defendendo até antes de falecer, em 2023, os fundos de vale como patrimônio essencial de Londrina.

Também o baiano autodidata João das Águas, “presidente” do Rio Tibagi, “prefeito” do Igapó e dos córregos de Londrina, falecido em 2022, instalou no imaginário londrinense os vales como símbolos da preservação e participação. Inspirou o extinto projeto Rio da Minha Rua - uma aposta na interação dos moradores com os vales de Londrina.

Três nomes que marcaram a história de Londrina com responsabilidade e visão de futuro.

Estamos em 2024, 90 anos da cidade, e Londrina enfrenta uma crise ambiental sem precedentes. Sob comando do prefeito, vereadores acabam de aprovar leis que reduzem drasticamente os fundos de vale e áreas verdes. Comemoradas por grupos ligados à construção civil, essas mudanças representam um ataque direto ao patrimônio ambiental de Londrina.

Desde o Plano Diretor de 1968, Londrina é referência em planejamento urbano, com fundos de vale que chegavam a 60 metros de largura, resultado de faixas sanitárias municipais de 30 metros somadas às Áreas de Preservação Permanente (APPs) federais. No entanto, a nova Lei de Parcelamento de Solos, aprovada na Câmara em 3 de dezembro de 2024, reduziu a histórica faixa para apenas 8 metros - 75% menos proteção ambiental municipal ao longo dos córregos. Proposta do prefeito, liderada pelo IPPUL, ante silêncio cúmplice da SEMA.

Ao reduzir o verde, a lei acaba com os espaços para campinhos, academias ao ar livre e equipamentos comunitários que ocupariam as faixas. Áreas verdes vitais para absorver chuvas, conter enchentes e preservar a biodiversidade agora em Londrina poderão ser substituídas por ruas e mais casas em loteamentos.

Outras medidas do Plano Diretor seguem na mesma direção: a Lei de Uso e Ocupação aumenta a altura de prédios próximos aos vales, criando sombreamento e sufocamento urbano; indústrias de impacto poderão ser instaladas perto de áreas sensíveis como a Mata dos Godoy e o Parque Daisaku Ikeda; e a Lei do Sistema Viário prevê ruas novas sobre córregos e até uma avenida picotando o Parque Arthur Thomas.

Para as áreas mais pobres, no pacote antiverde, está a desobrigação de loteadoras criarem praças em novos conjuntos populares caso já exista um vale (reduzido, claro) na região.

Enquanto cidades como São Paulo e Porto Alegre enfrentam os desastres causados por intervenções inadequadas em rios, Londrina, mesmo sem resistir a meia hora de chuvas, caminha para o mesmo destino de vulnerabilidade em plena mudança climática.

Tamanho ataque aos londrinenses do agora e do futuro, promovido por vereadores e pelo prefeito, é uma mancha na história de Londrina. Cada metro de vale perdido torna-se uma escolha perigosa e insensata.

Aos 90 anos, Londrina precisa ser celebrada como a cidade que protegeu seu legado ambiental e escolheu crescer de forma sustentável. Dia 19 de dezembro, na Câmara de Vereadores, 19h, haverá uma audiência pública sobre o tema. Você pode ajudar os vales de Londrina?

O tempo é já – antes das primeiras cicatrizes de concreto no lugar dos vales verdes de Prestes Maia, Tadeu e João das Águas.

Marcelo Frazão, jornalista; Felipe Chagas, advogado e Gabriel McCrate, biólogo, são integrantes da Ong Meio Ambiente Equilibrado (MAE) e Camila Oliveira, arquiteta e urbanista do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) de Londrina

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