Pressão na OMS
Uma decisão técnica da Organização Mundial da Saúde (OMS), embasada num programa de resultados positivos, coloca, infelizmente, o diretor do organismo, Jong Wook Lee, na ''saia justa''. Ele indicou o especialista brasileiro Paulo Teixeira para formular a nova política de Aids para a OMS, tendo em conta que a experiência brasileira de tratamento da doença e distribuição gratuita de remédios aos portadores de HIV são positivos. Com isso, Wook Lee, recentemente eleito, pretende implantar na Organização Mundial da Saúde um programa semelhante, visando a distribuição dos medicamentos para regiões mais pobres do mundo. Seriam cerca de três milhões de pessoas atendidas, principalmente da África.
Mas oras, há resistência não somente em relação à indicação do brasileiro, mas sobretudo quanto à política que este pode desenvolver no organismo. Os Estados Unidos, donos da recusa, querem no cargo de Paulo Teixeira um de seus funcionários. E uma das causas é puramente comercial. O temor norte-americano é de uma pressão da OMS sobre as multinacionais dos remédios, para que forneçam medicamentos mais baratos. Os Estados Unidos também receiam que o organismo mundial passe a dar mais atenção ao desenvolvimento de empresas produtoras de remédios genéricos. E o medo maior: que os governos dos Países contemplados com o programa da OMS sintam-se fortalecidos e tentem quebrar patentes de remédios de empresas multinacionais que não cumprirem a eventual determinação de baixar seus preços.
O nível do conflito atinge proporção absurda quando se conhece opiniões e comentários feitos por assessores do presidente norte-americano George W. Bush: ''Paulo Teixeira e o governo dos Estados Unidos têm visões diferentes do Mundo''. E também o da atual diretora da OMS, Gro Harlem Brundtland, esta que será brevemente substituída por Jong Wook Lee: ''Não acredito que seja uma proposta viável. Não é como dar doce às pessoas, pois os sistemas nacionais de saúde precisam estar adequados para fazer a distribuição de medicamentos''.
Deve ter Brundtland razão, assim como poderão estar certos os assessores de Bush. Seria suspeito e, desta forma sim, perigoso, se Paulo Teixeira tivesse proposta diferente. Da mesma forma, distribuir doce, consolidando o ''pão e circo'', faz parte da estratégia norte-americana para ''ajudar'' Países pobres. Por isso, pelo imaginário da atual diretora da OMS não passa a possibilidade de, antes de distribuir remédios, estimular a adequação dos ministérios de saúde dos Países contemplados. Afinal, no ''pão e circo'', tudo o que é dado vem pronto e embrulhado. O conteúdo é que traz o perigo, pois recheia a mensagem da permanente dominação.





