Pressão externa para eliminar trabalho escravo
O interesse econômico muitas vezes tem falado mais alto que a consciência da humanização e da boa remuneração do trabalho, assim como da eliminação de outros tantos males, e tem sido também o motivo de intervencionismos predatórios de nações mais poderosas sobre outras. Também agora a decisão do Governo brasileiro de acabar com o trabalho escravo no corte de cana foi motivada por idêntico interesse. Os importadores de etanol ameaçam não adquirir o produto se houver exploração dos trabalhadores do setor.
O próprio Governo admite que há ali trabalho escravo, mas nunca o Ministério do Trabalho tomou medidas consistentes para eliminar o problema. O abuso aos trabalhadores dessa lida vem desde o Brasil colonial, porque os ''senhores de engenho'' do passado dispunham de escravos e os de agora pouco têm se importado com eles. Além do excesso de carga horária nesse serviço o sistema sempre pagou mal e veio empregando inclusive menores.
Mas os males não são apenas estes, porque o corte de cana é sazonal e quando termina esse período os trabalhadores (homens, mulheres e adolescentes) precisam bandear-se para outros lugares em busca de ganho. Agora anuncia-se que na semana que vem o Governo assina um acordo com as usinas para garantir melhores condições de trabalho, incluindo 18 critérios, entre eles aumento salarial e alimentação adequada. A pressão externa compreende também a sugestão de deputados europeus de impor algumas exigências para importar o etanol do Brasil. O Governo brasileiro - embora vá atender ao que querem os importadores e já esteja diligenciando a respeito com as 413 indústrias do setor - ainda diz que parte dessa preocupação externa com os trabalhadores da cana ''deve ser uma desculpa para legitimar medidas protecionistas''. Em parte até pode ser, mas ao levantar essa hipótese demonstra que, para ele, realmente a questão do trabalho escravizante é secundário. Desde a expansão da produção de biocombustível o Brasil vem sendo alertado a respeito, e agora a situação chegou a um ponto extremo e o Governo teve que se mexer.
Desta vez o Ministério do Trabalho promete agir se as cláusulas do acordo não forem cumpridas. Já que muitas reformas e atenções governamentais não ocorrem espontaneamente neste país, bom seria se em tudo houvesse pressão positiva como esta dos compradores externos de etanol. Assim, a não intervenção nos desmatamentos, o custo altíssimo da máquina pública, a corrupção governamental, o desinteresse do Governo pela saúde públicas e as tantas coisas tortas deste país seriam eliminadas.





