Pressão atrapalha - Hélio Doyle
Pressão atrapalha
Hélio Doyle
O mundo mudou muito nos últimos anos, e uma das maiores demonstrações disso é o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat. Há poucos anos, era apresentado, pelos Estados Unidos e países europeus, como um sanguinário terrorista, obcecado em matar judeus e acabar com Israel. Hoje, é recebido festivamente pelos dirigentes desses países e exaltado como paladino da paz.
Arafat realmente mudou, como mudou a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que congrega os grupos políticos que lutam pela causa dos palestinos. Embora não haja unidade política total entre esses grupos, a maioria que Arafat representa deixou de lado a luta armada contra Israel e hoje aposta no processo de paz que leve à criação de uma Palestina internacionalmente reconhecida como país independente.
Arafat mudou tanto que não sente nenhum constrangimento em recorrer aos antes viscerais inimigos - os Estados Unidos, principalmente - para pressionar o governo de Israel a tomar medidas que efetivamente levem a um acordo de paz. Arafat gosta de recorrer a Bill Clinton, confiante no forte poder de pressão dos norte-americanos sobre seus fiéis aliados israelenses.
Aí é que está um dos problemas para o processo de paz em Israel. Há mediadores demais e isso acaba atrapalhando. Diante da claríssima disposição dos palestinos de chegar à paz e das perspectivas abertas por um novo governo em Israel, os Estados Unidos e os países ocidentais poderiam se recolher, pelo menos nesse primeiro momento de retomada das negociações, e deixar que os dois lados se entendam. Diretamente, sem necessidade de intermediários.
O futuro primeiro-ministro de Israel, o trabalhista Ehud Barak, conseguiu formar um governo de ampla coalizão, que lhe dá suficiente respaldo político para negociar a paz definitiva. Terá o apoio de pelo menos 75 dos 120 parlamentares, além de poder contar com outros deputados que não estarão integrando o governo. O direitista Likud - a não ser que fatos novos surjam esta semana - estará isolado na oposição.
Mas, na verdade, a correlação de forças na sociedade israelense não é essa. O Likud, do primeiro-ministro Bemjamin Netanyahu, recebeu quase a metade dos votos dos eleitores judeus e perdeu as eleições graças aos votos dos árabes, que rejeitaram maciçamente os conservadores. O que é natural, tendo em vista que Netanyahu tudo fez para impedir a paz e seria um fortíssimo candidato a um Prêmio Nobel da Guerra.
Assim, enquanto negociam, os dirigentes palestinos e israelenses têm de se preocupar com seus públicos internos. Os palestinos têm divergentes concepções acerca do processo e alguns grupos ainda se opõem a qualquer acordo com Israel. Os israelenses, que formam uma sociedade extremamente complexa em todos os aspectos - políticos, culturais, econômicos, raciais - tampouco aceitam monoliticamente a paz - ou, pelo menos, algumas concessões para que a paz se viabilize.
Isso torna a negociação ainda mais difícil. E interferências e pressões externas podem, em vez de ajudar, prejudicar, pois os dirigentes, especialmente os israelenses, terão de resistir às pressões para não ficar mal perante seus eleitores.
As negociações de paz entre palestinos e israelenses já são suficientemente difíceis. Não é preciso que a turma das bombas e mísseis interfira, até porque Israel, certamente, jamais será alvo deles.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília





