Presidente, ouça o Presidente!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de fevereiro de 1997
Ardisson Naim Akel 
Num discurso improvisado ao visitar o Porto de Sepetiba (RJ), no dia 31 de janeiro último, o presidente Fernando Henrique Cardoso acenou entusiasmado com a promessa de redução dos juros. Para o país poder enfrentar o desafio da competição internacional, disse o presidente para uma platéia preponderantemente de exportadores, o governo deve tomar as decisões, necessárias para reconstruir nossas indústrias e permitir que aqueles que trabalham no Brasil tenham condições, sobretudo nos juros, de competir lá fora.
Muito aplaudido pelos empresários e políticos presentes, o discurso ganharia no dia seguinte as manchetes de primeira página de praticamente todos os jornais do país. Essa não é, porém, a primeira vez que o presidente Fernando Henrique Cardoso reconhece a necessidade de baixar os juros, ou acena com a promessa de fazê-lo. E o país continua, ansioso, quase angustiado, no aguardo de que, dos acenos, finalmente se parta para a decisão, para a tomada de medidas concretas.
O que o Brasil vem praticando, na verdade, é a agiotagem institucionalizada. São juros reais mais que extorsivos, são juros escorchantes, os maiores de nossa história, os maiores do mundo. Taxas absurdamente tão altas, que estão estrangulando o setor produtivo. Seriam elas realmente necessárias para manter a estabilidade econômica? Emendemos que não. Há muito que o governo poderia ter afrouxado esse freio da atividade econômica sem colocar em risco a estabilidade. Do contrário, arrisca matar o paciente por excesso de medicação.
Nesse quadro, vale lembrar, o próprio estado brasileiro é refém dos juros estratosféricos. Administrando uma dívida interna gigantesca, o governo depaupera as finanças públicas gastando no serviço da dívida, todos os anos de reais que fazem falta para investimentos nas áreas de saúde, habitação, educação, saneamento, etc.
Vítimas imediatas dessa situação, médicos e pequenos empresários se agigantam na luta diária para manter seus negócios. Se necessário, premidos não só pelos altos juros mas também pelas dificuldades que os bancos criam para autorizar um financiamento, eles se desfazem do patrimônio pessoal ou familiar - amealhado ao longo de décadas de trabalho árduo - para aplicar em suas empresas e mantê-las operando. Não obstante todos os esforços e sacrifícios, muitas delas já ficaram pelo caminho, estocadas de morte pelas absurdas taxas de juros. Assim, a cada dia mais e mais engordam as estatísticas das concordatas das falências - e aumenta a fila do desemprego.
É na casa do trabalhador que mais doloridos se fazem os efeitos dessa situação, o drama de um posto de serviço fechado, de uma empresa desativada. Ao negarmos ao trabalhador o direito de prover condignamente a si e a sua família, mediante o emprego, estamos lhe negando o direito à cidadania e tudo o que este conceito abrange: direito de educar os filhos, de uma moradia digna, de acesso a um serviço de saúde decente. Quando negamos ao trabalhador um emprego, estamos lhe negando, sim, o direito à esperança.
Somente o crescimento da atividade econômica poderá propiciar os empregos que faltam não só para a atual legião de desempregados e sub-empregados, mas também para as levas de jovens que todos os anos tentam se incorporar ao mercado de trabalho. E somente a prática de juros condizentes com a atividade econômica é que irá permitir, estancando a atual sangria da empresa brasileira, o crescimento tão necessário.
O presidente da República reconheceu, em seu discurso em Sepetiba, que a redução imediata da taxa de juros é condição essencial para recompor a empresa nacional, ganhar competitividade internacional, retomar os investimentos e gerar novos postos de trabalho. Só nos resta, pois, rogar ao presidente da República que ouça e pratique o que prega o próprio presidente da República. E baixe as taxas de juros.


