Presidente da Sanepar descarta racionamento
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domingo, 15 de fevereiro de 2015
Andréa Bertoldi Reportagem Local 
A crise hídrica que se intensificou, principalmente na Região Sudeste, já está fazendo outros estados do País começarem a se organizar com ações preventivas em relação ao abastecimento de água. No Paraná, a previsão da Sanepar é investir cerca de R$ 1,250 bilhão em captação, tratamento e distribuição de água. Entre as principais ações estão a duplicação da capacidade de captação do Rio Tibagi em Londrina, o novo reservatório de captação Miringuava que será criado em São José dos Pinhais (Grande Curitiba), o sistema de captação móvel em Foz do Iguaçu que acompanha o nível do Rio Paraná e será inaugurado nos próximos dias e um projeto de recuperação das bacias de alguns rios.
Em entrevista para a FOLHA, o presidente da Sanepar, Mounir Chaowiche, disse que há também um estudo para o uso da água do Rio Capivari, em Antonina (Litoral), onde a Copel já mantém a Usina Hidrelétrica Governador Pedro Viriato Parigot de Souza. A companhia de saneamento do Paraná está ampliando a implantação de poços artesianos em várias cidades. A ideia ainda é lançar um projeto de instalação de caixas d'água em residências, já que hoje 300 mil casas não têm este tipo de reservatório.
Chaowiche disse que hoje o Estado não corre risco no curto de prazo de enfrentar um racionamento de água, o que não é motivo para o consumidor deixar de tomar atitudes de consumo racional de água. Segundo levantamento da Sanepar, no último trimestre, encerrado em janeiro, o consumo de água ficou praticamente estável e fechou em 129,194 milhões de m3, volume 0,87% superior ao apurado nos meses de novembro e dezembro de 2013 e janeiro de 2014.
O que a Sanepar está fazendo preventivamente para evitar a falta de água como está acontecendo no Sudeste do País?
Quando o governador Beto Richa assumiu, uma das missões que ele estabeleceu para a Sanepar foi trabalharmos com planejamento para o futuro não apenas para quatro anos, que acaba sendo até muito fácil, cômodo. Estamos implantando um planejamento de 30 anos. A preocupação não é só um mandato, nós temos uma preocupação com o futuro. Temos ações que estão acontecendo de curto prazo que trazem soluções imediatas, mas estamos trabalhando com planejamento de longo prazo. Recentemente o governador inaugurou a duplicação da capacidade de captação do Rio Tibagi, que vai assegurar para Londrina e Cambé abastecimento de água para os próximos 30 anos na região. Em Curitiba, nós estamos agora investindo em mais um reservatório de captação de água que é o Miringuava, em São José dos Pinhais. Será mais uma represa de reservação de água. Já temos quatro represas de captação de água em Curitiba e está será a quinta. O reservatório de Miringuava será licitado neste ano e deve demorar dois a três anos para entrar em operação. O que temos hoje dá sustentação, que são os reservatórios do Iraí, Piraquara 1 e 2 e Passaúna, para Curitiba e Região.
Para Curitiba e região a situação é tranquila?
Sim. Mas não é só isso. Estamos avançando em um estudo de possibilidade de uso da água do Capivari, que hoje é de uso exclusivo apenas de energia pela Copel. O início da operação é mais a longo prazo. Estamos entrando em negociação com a Copel, com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Mas é um projeto já considerando os 30 anos.
No curto prazo o Paraná corre algum risco de falta de água?
Não. Pelo que nós temos de investimentos acontecendo, eu diria que estamos com uma situação mais segura. Mesmo em uma condição confortável agora, vamos trabalhar com um material informativo, de orientação para que a população entenda que nós precisamos também ter a participação da sociedade no uso racional da água.
Será feita uma campanha sobre o uso da água?
Hoje não há a necessidade de uma campanha específica para o uso racional ou de contenção de uso, mas um processo educativo de conscientização. A área de comunicação está preparando materiais para que possamos conversar com a pessoas. Não podemos nos acomodar ou relaxar por termos uma situação favorável. Vamos trabalhar para que a população use racionalmente a água. Temos vários projetos que já desenvolvemos junto com as escolas. Trabalhamos muito em eventos pontuais. Vamos desenvolver esse ano um projeto de recuperação das bacias dos nossos rios, inclusive buscando parcerias de outras entidades do Governo do Estado, dos municípios e de outras entidades organizadas.
Existem outras ações que estão sendo desenvolvidas a curto prazo para evitar a falta de água?
Investimentos fortes. Hoje a Sanepar é uma instituição que tem projetos com condições de alavancar recursos. Estamos conversando com vários organismos internacionais. Estamos desenvolvendo uma agenda com o Ministério das Cidades para que possamos ter a implementação destes projetos e continuar investindo permanentemente.
O que está sendo feito no curto prazo para a prevenção da crise hídrica para este ano?
Já estamos ampliando nossas represas, como é o caso de Miringuava. Temos o sistema de captação de alguns rios ampliado. Em Foz do Iguaçu vamos inaugurar nos próximos dias a captação móvel. Instalamos uma estrutura móvel em Foz que acompanha o nível do Rio Paraná e vai assegurar o abastecimento de água em qualquer situação. Estamos ampliando a captação em alguns rios, como é o caso do Tibagi, que duplicamos. Em algumas regiões que temos captação em poços artesianos, também estamos ampliando a implantação de novos poços em várias cidades do Paraná. Ampliando os nossos reservatórios urbanos, como é o exemplo de Londrina. Uma das formas, preventivamente, é ter reservatórios. Temos muitas famílias que não têm caixa d'água. Como a alimentação é direta da rua, qualquer ponto de falta d'água compromete o abastecimento destas residências. São 300 mil residências sem caixa d'água de um total de 2,5 milhões de residências atendidas pela Sanepar no Estado. Vamos lançar um projeto de implantação de reservatórios domiciliares agora.
Tem um valor de investimento definido para isso tudo?
Nos últimos quatro anos, dos investimentos de R$ 2,5 bilhões, aproximadamente metade é para água e a outra metade para coleta e tratamento de esgoto. Entre 2015 e 2018, estamos trabalhando pelo menos para repetirmos esse volume de investimento. Há uma política de investimento geral no Estado e não apenas nas grandes cidades. Graças a esses investimentos que estamos com situação mais segura, mais tranquila.
A Sanepar garante que o paranaense não enfrentará um racionamento de água nem a longo prazo?
Garantir é impossível, porque tem coisa que vai depender de Deus. Posso garantir que tudo faremos para que o paranaense não sofra com a falta de água. Por mais que a gente invista, é fundamental a conscientização do paranaense no uso racional da água. Hoje, as pessoas podem ficar tranquilas no Estado, mas há a necessidade de melhorarmos o hábito do consumo.
Desde que iniciou a crise hídrica no Sudeste o paranaense passou a economizar água?
Ainda não vimos mudança no comportamento. Há alguns casos isoladamente de pessoas se conscientizando, mas não um movimento significativo que venha demonstrar mudança de hábito.
Existe um plano de contingência sendo preparado?
O que temos são as novas instalações. Em Londrina, onde dobramos a capacidade, estamos usando apenas 60% da capacidade de abastecimento do Rio Tibagi e há 40% que numa crise pode ser usado. Temos uma margem de segurança em todo o Estado. Há preocupação da Sanepar em dar segurança para todos os paranaenses. Quando falamos em preservar a água, nós temos que falar do esgoto. Se não trata o esgoto e vai in natura para os rios, ele acaba contaminando e prejudicando o abastecimento de água. Então, quando investimos em coleta e tratamento de esgoto, estamos garantindo, de uma certa forma, o abastecimento de água com qualidade.
Qual é o diferencial do Paraná em relação ao Sudeste?
A empresa sempre investiu na qualificação dos profissionais. Há funcionários indo para o exterior para conhecer novas práticas. A empresa tem mais de 7 mil trabalhadores efetivos. Além da qualificação dos profissionais, nós temos o diferencial que é o forte investimento feito nos últimos anos. Isso nos deu uma segurança agora. Essa crise hídrica é um alerta para todos os governantes da necessidade de investimento. Há pequenas obras acontecendo em todos os municípios.
Foi necessário um reajuste de 12,5% na tarifa de água e esgoto neste ano?
O nosso governador teve a determinação e coragem de resgatar a tarifa para fazer investimentos. Mesmo com este reajuste de 12,5% neste ano, não é o suficiente. O lucro líquido da companhia é revertido em investimento. Mesmo com os reajustes dos últimos quatro anos e de 2015, estamos com uma defasagem de 10% na tarifa de 2005 até agora. O Paraná tem uma das menores tarifas de água do Brasil. Foi muito danoso o período de congelamento da tarifa. É melhor a população pagar uma tarifa real e ter a garantia da água, que é vida. Todo o recurso que a população está investindo e pagando será reinvestido para a população. Essa tarifa deste ano é necessária e ainda não é o suficiente. O governador teria que aplicar uma tarifa de 17,5%.
Em 2012, uma operação da Polícia Federal revelou que a Sanepar cobrava pelo tratamento de esgoto, mas não executava o serviço. O que foi feito em relação a tratamento de esgoto depois disso?
Diferente do que se tentou mostrar naquele momento, a Sanepar não é uma empresa poluidora da forma como eles colocaram. Temos todos os indicativos técnicos de especialistas do sistema, de revistas especializadas que mostram com números reais que a Sanepar tem o melhor processo de coleta e tratamento de esgoto do País. A partir de 2012, foi investido mais. No entanto, é importante destacar que não é em função da operação. Quando o governador Beto Richa assumiu em 2011, a determinação era de recuperação da Sanepar e de fortes investimentos. Em 2011 ele já começou com a recuperação tarifária para dar condições de investimento. Temos muitas concessionárias no País que coletam 60% a 65% de esgoto da população, mas tratam a metade e jogam o restante nos rios. No caso do Paraná, nós coletamos 65% e tratamos. Estamos na Justiça defendendo a nossa tese em relação à Polícia Federal e os nossos profissionais que foram tratados de uma maneira equivocada. A Sanepar é uma empresa séria. Não negamos que ainda precisamos fazer muitos investimentos. Temos vários investimentos no Paraná para melhorar o tratamento de esgoto.
No ano passado, o consórcio Dominó, sócio privado da Sanepar, reduziu sua participação no capital total da companhia de 30,2% para 12,16%. Existe a intenção do governo em diminuir ainda mais a participação dos sócios privados no capital da Sanepar?
Isso trouxe de positivo a população perceber que diferente do que se pregava na campanha eleitoral de que o governador iria privatizar a Copel e a Sanepar, com essa medida o governador consolidou de vez a participação do Estado como sócio majoritário. O governador entende que é importante a participação da iniciativa privada. Queremos continuar com os sócios, eles contribuindo com tecnologias, com participação, com investimentos. O modelo que a Sanepar tem hoje de composição acionária é elogiada por outros estados que não têm a participação da iniciativa privada. Não está nos nossos planos diminuir a participação dos sócios privados, pelo contrário, queremos mantê-los. Estão sendo bons parceiros. A sociedade está vendo o Governo Federal com várias ações estimulando as PPPs. A questão das PPPs e da iniciativa privada, da maneira como é feita na Sanepar é saudável e só traz benefícios para a população.


