‘‘Põe aí no jornal que o Belinati foi cassado por um açougueiro que ele subestimou.’’ Foram com essas palavras que o vereador e hoje presidente da Câmara, Orlando Bonilha (PL), justificou o seu voto favorável à cassação do mandato do então prefeito.
  Escolhido como relator da recém-formada Comissão Processante, Bonilha foi desde então, o principal alvo de críticas de Belinati. Em abril de 2000, Belinati apresentou fitas de vídeo para mostrar uma suposta extorsão que teria sofrido dos vereadores Bonilha e Jaci Aguiar no dia 28 de fevereiro. Em maio, uma perícia realizada a pedido do Ministério Público, concluiu que a gravação foi editada. Apesar disso, a dúvida que pairou sobre os vereadores fez com que Bonilha pedisse o afastamento da CP, evitando prejuízos ao relatório final da comissão. Com a saída de Bonilha, Osvaldo Bergamin assumiu a relatoria da CP.
  Após as 25 horas de sessão, foi iniciada a votação do relatório da CP. Eram necessários dois terços dos votos – 14 – para a cassação. Na primeira chamada, foram contabilizados 13 votos favoráveis à cassação e seis contra. Bonilha havia se ausentado do plenário. Na última chamada, no entanto, o ‘‘sim’’ de Bonilha selou a condenação política de Belinati. ‘‘Foi o último voto que deu a cassação. Se o meu voto não fosse ‘sim’, ele teria sido absolvido e hoje teríamos outro quadro político. Tenho certeza que tomei a decisão correta e não me arrependo mesmo com toda a pressão que sofri na época’’, relembrou.
  Apesar de passados três anos da cassação, Bonilha diz que ainda se sente ‘‘perseguido’’ devido seu voto. ‘‘Até hoje me sinto perseguido por esse cidadão que está recuperando sua elegibilidade. No programa de rádio dele, ele me atinge, critica, xinga esse vereador com palavras baixas. Ao invés de tentar explicar onde foi o dinheiro público, ou até mesmo se comprometer a reembolsar o dinheiro, ele tece críticas contra o presidente da Câmara’’, relatou Bonilha. Bonilha e Belinati têm na região norte da cidade o principal reduto eleitoral.
  Após a cassação, a defesa de Belinati acionou a Justiça tentando anular a decisão da Câmara alegando que o voto de Bonilha havia sido motivado por vingança. Sem sucesso no Fórum local, a ação está tramitando no Tribunal de Justiça do Paraná.
  Para o atual presidente do Legislativo, a penalidade em casos de cassação de mandatos deveria ser revista. ‘‘Acho que deveria primeiro dar um jeito de rever todo esse dinheiro desviado e deveria sofrer penalidade maior, deveria cassar definitivamente os direitos políticos e não deixar disputar cargo eletivo em lugar nenhum em casos de cassação’’, opinou. Mas, no caso específico de Belinati, Bonilha acredita que a cassação correspondeu ao fim da carreira política do então triprefeito da cidade. ‘‘Mesmo que ele queira (se candidatar em 2004), acredito que a população vai dar ‘cartão vermelho’, mostrar que não aceita que volte a disputar cargo eletivo. A população sabe votar e sabe quem respeita a coisa pública.’’ (C.O)

CRONOLOGIA
22 DE JUNHO DE 2001 - Promotoria ajuiza duas ações civis públicas e uma criminal – com pedido de prisão preventiva do ex-prefeito
29 DE JUNHO DE 2001 - Ação cita ex-prefeito, vice-governadora Emília Belinati e o deputado Antonio Carlos Belinati pelo desvio de R$ 270 mil. A maior parte dos recursos teriam sido canalizados para a campanha política de Antonio Carlos, em 1998
27 DE JULHO DE 2001 - Belinati é preso novamente. Juíza Fabiana Karam decreta prisão em ação pelo desvio de R$ 270 mil. Também foram presos o ex-assessor Cassimiro Zavierucha e o ex-presidente da Comurb, Kakunen Kyosen
30 DE JULHO DE 2001 - Belinati, Zavierucha e Kyosen conseguem habeas-corpus no TJ
07 DE AGOSTO DE 2001 - Procuradoria ajuiza segunda denúncia criminal contra ex-prefeito pelo desvio de R$ 146 mil da AMA. Além de Belinati também foram solicitadas as prisões preventivas do ex-secretário Gino Azzolini Neto, e do ex-procurador do município Eduardo Duarte Ferreira
01 DE OUTUBRO DE 2001 - Caso AMA/Comurb gera mais três ações. Em duas denúncias criminais, são solicitadas a prisão do ex-prefeito.
15 DE OUTUBRO DE 2001 - Justiça decreta a indisponibilidade dos bens dos deputados Antonio Carlos, Janene e Canziani na ação pelo desvio de R$ 67 mil da Comurb
30 DE OUTUBRO DE 2001 - O Partido Liberal (PL) é a nova legenda do ex-prefeito
01 DE NOVEMBRO DE 2001 - TC desaprova prestação de contas da prefeitura relativa ao ano 2000. TC determina ainda a realização de uma auditoria nas contas da prefeitura. As despesas superaram a receita em R$ 30.552.345,74.
11 DE NOVEMBRO DE 2001 - Polícia civil indicia mais de 20 pessoas em inquéritos sobre os desvios na prefeitura.
13 DE DEZEMBRO DE 2001 - Justiça decreta nova indisponibilidade de bens do ex-prefeito, do deputado Antônio Carlos, em ação sobre o desvio de R$ 24,9 mil da Comurb
17 DE DEZEMBRO DE 2001 - MP ajuiza 25ªação pelo desvio de R$ 590 mil do Fundo de Urbanização de Londrina
DEZEMBRO DE 2001 - Por decisão do diretório nacional do PL, Belinati é expulso do partido.
20 DE MARÇO DE 2002 - Desvio de R$ 141 mil da AMA é alvo de ação, denunciando 22 pessoas, entre elas o deputado federal Paulo Bernardo (PT) e o eentão vereador e presidente do PT do Paraná, André Vargas
10 DE ABRIL DE 2002 - Ação com mais de 380 páginas denuncia 73 pessoas pelo desvio de R$ 988 mil
13 DE JUNHO DE 2002 - Décima ação criminal é ajuizada pelo desvio de R$ 225 mil da Comurb, com pedido de prisão preventiva
28 DE JUNHO DE 2002 - Ação denuncia depósito em conta de Belinati. Conforme denúncia do MP, cerca de R$ 6 mil – de um total de R$ 225 mil desviados da Comurb – teriam sido depositados na conta corrente do ex-prefeito
01 DE JULHO DE 2002 - Com o ajuizamento de três novas ações, o desvio denunciado nas ações do MP já atingem R$ 10 milhões
10 DE JULHO DE 2002 - Nova indisponibilidade de bens de 21 citados em ação civil pelo desvio de R$ 174 mil
12 DE DEZEMBRO DE 2002 - TJ acata denúncia criminal contra o ex-prefeito. A ação também cita o prefeito de Nova Santa Bárbara, Júlio Bittencourt
27 DE DEZEMBRO DE 2002 - Belinati lança a sua pré-candidatura a prefeitura de Londrina nas eleições de 2004
15 DE FEVEREIRO DE 2003 - TC reprova a prestação de contas de um convênio firmado em 1997, entre a prefeitura e o DER, no valor de R$ 4,4 milhões. Cerca de R$ 3,9 milhões teriam sido ‘‘desviados para outras contas correntes da prefeitura para cobrir débitos alheios ao ajuste (convênio)’’
08 DE ABRIL DE 2003 - Desvio de R$ 48 mil da Comurb é denunciado pelo MP
06 DE MAIO DE 2003 - MP ajuiza 35ªação do caso AMA/Comurb pelo desvio de R$ 179 mil
12 DE MAIO DE 2003 - Quatro advogados ajuizam ação popular contra o ex-prefeito pedindo a devolução de recursos aos cofres municipais, arguindo a nulidade do contrato realizado pela prefeitura e Sercomtel, com dois escritórios de advocacia de Curitiba.
19 DE MAIO DE 2003 - Ex-vice-governadora do Estado Emília Belinati e o seu marido, Antonio Belinati, são denunciados em duas ações penais ajuizadas na Justiça Federal por crimes de sonegação fiscal
27 DE MAIO DE 2003 - Belinati é condenado em ação civil pública por negar informações a munícipe. Juíza Cristiane Ferrari, condena o ex-prefeito ao pagamento de multa de cerca de R$ 800 mil, cinco anos de suspensão dos direitos políticos e proibição de contratação com o poder público por três anos.

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