Temas como sustentabilidade e ecologia vieram à tona nas eleições presidenciais, especialmente nos discursos da candidata Marina Silva (PV). E o povo brasileiro mostrou-se preocupado a questão ambiental. Tanto que a ambientalista recebeu quase 20 milhões de votos e foi decisiva para levar a disputa para o segundo turno.
  O debate sobre preservação ambiental não é novo. A Carta da Terra, que determina diretrizes ecológicas para ser seguidas no mundo todo, começou a ser elaborada em 1992 durante a Conferência Rio-92 e foi aprovada pela Unesco em 2000. O documento foi agora encaminhado para a Organização das Nações Unidas (ONU) para ser adotada como a Carta dos Direitos Humanos.
  ‘‘A Carta prevê uma mudança de paradigma. A situação do mundo é grave e a degradação da terra é profunda. Devemos inaugurar um novo começo, que exige mentes e corações novos’’, defende o teólogo Leonardo Boff, representante da Carta da Terra, que ministrou palestra sobre o tema em Londrina, no 7º Seminário Nacional de Responsabilidade Social do Sistema Unimed.
  Em entrevista à FOLHA, Boff afirma que toda a sociedade precisa se mobilizar e modificar hábitos do dia a dia. ‘‘A mudança de atitude começa em casa com a maneira como se trata o lixo, a água, a energia. É preciso ter uma nova concepção do mundo que inclui mais hospitalidade, menos preconceito e violência. O relógio corre contra nós’’, alerta.
  Na prática, o que a Carta da Terra trouxe ao País e à humanidade? A partir dela, houve avanços e novas perspectivas?
  A Carta se destina à humanidade. Ela teve muita repercussão no Brasil porque foi incorporada na Agenda 21 (principal resultado da Conferência Rio-92). Além disso, o Instituto Paulo Freire divulgou muito a Carta. No Centro de Defesa dos Direitos Humanos nós fizemos um vídeo em três idiomas (português, espanhol e inglês), que teve grande circulação, especialmente nas escolas. O lugar onde a Carta da Terra teve mais eficácia foi no Projeto Cultivando Água Boa da Itaipu Binacional, pois foi considerada a Carta de referência, sendo aplicada em 29 municípios ribeirinhos. A Itaipu Binacional chegou a ganhar um prêmio mundial. Existem também grandes instituições e empresas que propagam a Carta no Brasil.
  Falta muito para alcançarmos os principais objetivos da Carta, que visa uma sociedade mais justa, sustentável e pacífica?
  Falta muito em todo o mundo. A Carta prevê uma mudança de paradigma. Ela diz claramente que a situação do mundo é grave e que a degradação da Terra é profunda. Nós devemos inaugurar um novo começo. Esse recomeço exige mentes e corações novos, passo que ainda não foi dado. Essa proposta indica uma revolução no modo de produção, de consumo e na relação com a terra. Indica uma nova forma de habitar o planeta, não mais devastando e produzindo com sustentabilidade. A grande revolução da Carta é que ela coloca no centro das atenções a vida, a humanidade e o planeta. A destruição da biodiversidade é um dos pontos mais graves atualmente.
  Então, a destruição da biodiversidade é um dos principais fatores que inviabilizam a implantação dos princípios defendidos na Carta?
  A Carta é uma resposta a diversas questões. Estou envolvido com esse documento desde o início em 1992. Consultamos mais de 46 países, mais de 100 mil pessoas do mundo inteiro. Levantamos informações de comunidades indígenas, de negros, religiões distintas, universidades. Queríamos saber o que a humanidade quer da terra. A partir daí nasceu a Carta, documento que eu considero um dos mais belos do século XXI. A primeira frase dela já é significativa e traz que nós estamos em um momento crítico da história da Terra, em um momento que devemos tomar uma decisão. Precisamos fazer uma opção: ou formar uma aliança global, cuidar um do outro e da Terra ou aceitar a nossa destruição.
  Como mobilizar as pessoas? Qual o papel da escola, da família e dos governos?
  A Carta tenta mobilizar toda a sociedade, as famílias e as escolas. Conseguimos o apoio dos ministério do Meio Ambiente e da Educação. O presidente criou o projeto ‘Cuidando do Brasil’ em que o fundamento maior é a Carta da Terra. Em setembro deste ano fizemos um encontro na Holanda para apresentar o balanço, mostrando como a Carta está no mundo. Percebemos que cada vez mais as empresas e as pessoas estão assumindo o documento. Estamos em um momento de conscientização. Se a gente não incorporar novos valores, a Terra pode continuar existindo sem os seres humanos.
  O atual cenário exige mudança de pensamento e de atitude, por menores que sejam. Quais hábitos deveriam ser modificados no dia a dia?
  A Carta introduz os famosos três ‘R’. É preciso reduzir o consumo, reutilizar e reciclar. Mas também é necessário reflorestar, rejeitar a cultura do consumo e respeitar todos os seres. A mudança de atitude começa em casa com a maneira como se trata o lixo, a água, a energia etc. É preciso ter uma nova concepção do mundo, com menos preconceito, mais hospitalidade, menos violência para resolver os problemas. É uma série de valores, princípios e comportamentos que implica em uma nova civilização. E volto a dizer: ou nós fazemos isso ou vamos ao encontro do pior. O relógio corre contra nós.
  Os governos dão a devida atenção e investem o suficiente na divulgação dos princípios da Carta da Terra?
  Há governos que incorporaram a Carta na própria Constituição, como a Costa Rica. No Brasil estamos lutando para que os ministérios incorporem valores e princípios a favor da sustentabilidade. A Carta da Terra indica como deve ser a democracia, mostrando a necessidade de incorporar elementos cósmicos, como repeitar as plantas e os animais.

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