O grande vilão do clima hoje é o CO2. Esta foi uma das conclusões da COP-16 (Conferência das Partes) realizada em Cancún, no México, no início deste mês. O objetivo agora é reduzir a emissão e assim tentar conter o aquecimento global. Alguns itens ainda ficaram pendentes para a COP-17, que será realizada em Durban, na África do Sul, em 2011.
Fernando Barros, engenheiro civil e especialista em Planejamento e Gestão Ambiental, participou da CPO-16 e nesta entrevista à FOLHA conta o que foi discutido no evento. Para ele, as empresas que não se adequarem às novas necessidades e não reduzirem as emissões de CO2 ficarão fora do mercado. ''Se uma empresa não segue uma norma de qualidade, uma norma ambiental, ela não vende para o Japão, não vende para a Europa'', exemplifica.
O CO2 saiu como o grande vilão da Conferência. Por quê?
Em 1992 a ONU promoveu a Eco 92 e ali, pela primeira vez, identificou que estava havendo um problema nas mudanças climáticas e que deveria ser tomada uma série de medidas. Surgiram as COPs e chegou-se à conclusão de que a probabilidade de (o vilão) ser o CO2 era de 99,9%. Na nossa vida hoje tudo produz CO2. Por outro lado, quem gosta de CO2? Árvores. Precisamos de mais árvores.
Todos os países percebem que precisam tomar uma atitude contra o CO2. Em Cancún, o que me chamou a atenção é que quase todos têm o mesmo objetivo, todos percebem que tem que haver uma mudança. A economia do mundo é como um transatlântico. Você não consegue fazer uma curva de uma vez, precisa ir virando aos poucos. Precisa ir se adaptando a essa situação do CO2.
A questão é muito CO2 e pouca árvore?
Exatamente. Mas existe o problema econômico. Em Kyoto ®MDBO ®MDNM (Japão) foi feito um acordo no qual os países desenvolvidos se comprometeram a reduzir a emissão de CO2. Mas eles não se conformam que os países em desenvolvimento fiquem de fora. Chegou-se a um acordo de que os países vão diminuir as emissões, mas querem que seja colocado em prática um conjunto de regras para mensurar, relatar e verificar a redução das emissões. Seria como uma auditoria para verificar se as emissões que os países dizem que têm são verdadeiras ou não.
Quais outros pontos foram definidos em Cancún?
Foi aprovado o Fundo Verde, de até US$ 100 milhões até 2020, que serão doados pelos países ricos. Os em desenvolvimento concordam em reduzir, mas os desenvolvidos têm que pagar a conta. Esse dinheiro do Fundo Verde é principalmente para os países insulares, que correm o risco de desaparecer. Também foi aprovado o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), que é um instrumento que vai remunerar aquele que não desmatar. A origem desse dinheiro ainda não foi decidida, mas deve ser do Fundo Verde. Outro ponto é que os países desenvolvidos vão trocar tecnologia, vão fornecer tecnologia para os países em desenvolvimento para reduzir as emissões.
Qual a posição do Brasil na COP-16?
As 40 maiores empresas do Brasil, antes da Convenção de Copenhague (Dinamarca, 2009), procuraram o presidente Lula e disseram que concordavam em reduzir a emissão de CO2. O presidente Lula chegou a Copenhague e apresentou uma meta voluntária de redução de 33%. A posição do Brasil é muito boa porque depois de Copenhague o Brasil aprovou no Congresso a Política Nacional das Mudanças Climáticas, colocando todas as intenções de como fazer a redução de emissão. Na semana final de Cancún o presidente regulamentou a lei que exige que as empresas façam o inventário das emissões e a compensação delas. O Brasil colocou que tem a lei, que vai fazer sua parte e que os outros têm que fazer a parte deles.
É possível produzir com a redução de CO2? Vamos produzir menos?
Não é produzir menos, é fazer diferente. É como a construção dos prédios verdes. Tem que ser feito o inventário das emissões. Depois fazer substituições que emitam menos CO2. Para compensar, quem emite muito vai ter que arrumar uma forma de plantar árvores. E não é qualquer árvore, tem que ver a capacidade dela de absorver gás carbônico. É possível negociar com alguém que tenha uma mata, que não participe do REDD, comprar os créditos de carbono. Mas ficar pagando sempre é ruim, então é necessário mudar o processo produtivo, para produzir com menor emissão.
O Brasil está preparado para fazer todas essas modificações, seguir corretamente a lei?
As grandes empresas são prestadoras de serviço a nível mundial e são cobrados por isso. Se um empresa não segue uma norma de qualidade, uma norma ambiental, ela não vende para o Japão, não vende para a Europa. Quem não fizer isso vai ficar para trás.
Corremos o risco de ficar sem alimento? Onde vamos plantar tantas árvores?
A situação hoje é calamitosa, tem uma crise de falta de árvore. Você tem que incentivar. Daqui a alguns anos, quando a quantidade de árvores for suficiente, a política provavelmente vai mudar. Mas o Brasil não vai perder área de plantio. O Brasil tem muitas áreas que podem ser plantadas e não são aproveitadas.

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