O Brasil registrou a maior perda de floresta no mundo entre 2000 e 2005. A conclusão é da Organização das Nações Unidas (ONU), que revela que o País perdeu 3,1 milhões de hectares de florestas por ano nesse período, o que corresponde a três milhões de campos de futebol. Para se ter uma ideia, somente a Mata Atlântica abrangia originalmente 17 Estados brasileiros, o que correspondia a 15% do País. Hoje restam apenas 7%.
O Terceiro Panorama Global de Biodiversidade mostra que vários ecossistemas podem estar próximos de sofrer mudanças irreversíveis, tornando-se cada vez menos úteis à humanidade. Dentre as modificações, estão o desaparecimento rápido de florestas, a proliferação de algas em rios e a morte generalizada de corais.
''As pessoas destroem a biodiversidade por incompetência e ignorância. Muitos brasileiros querem eliminar as florestas acreditando que elas são motivo de vergonha e de atraso'', alfineta Roberto Klabin, presidente das fundações SOS Mata Atlântica e SOS Pantanal.
Roberto Klabin, que está em Londrina para ministrar a palestra ''Brasil - Potência Ambiental'', que faz parte da programação do 3º Congresso Nacional de Responsabilidade Socioambiental, aponta nesta entrevista as atitudes consideradas essenciais para contribuir com a preservação do meio ambiente.
Uma atitude essencial que contribuiria com a preservação do meio ambiente é a mudança nos atuais padrões de consumo? De onde deve partir uma iniciativa nesse sentido: dos governos, dos empresários ou da população?
Sem dúvida é uma atitude essencial que deve partir dos três segmentos: dos governos, dos empresários e da população. No caso dos governos, o objetivo é educar; dos empresários, é produzir bens menos descartáveis e mais duráveis; e da população, é fazer as escolhas certas e tomar medidas para consumir menos energia e água e poupar dinheiro. Grandes empresas já desenvolvem campanhas que estimulam o consumo sustentável. Essas campanhas acabam educando o consumidor, que começa a ver vantagens em adquirir esses produtos e consegue identificá-los nas gôndolas dos supermercados.
Eu acho muito importante os governos desenvolverem campanhas que estimulem a poupança. Não adianta falar em consumo sustentável com pessoas que não têm capacidade de gerir seus recursos. A pessoa pode não ter recursos para comprar produtos de origem sustentável e se endividar. Os indivíduos precisam aprender a usar o dinheiro.
O Brasil tem condições de aumentar a capacidade de produção de alimentos sem aumentar o desmatamento e a destruição da natureza?
Sem dúvida. O Brasil não precisa destruir mais a natureza para aumentar a produção de alimentos. Basta investir em tecnologia e aumentar a produtividade. Hoje em dia é possível fazer isso usando terras que foram abertas para a pecuária. O País conta com aproximadamente 200 milhões de hectares usados pela pecuária. Desses 200 milhões, há muita terra desgastada. É preciso recupará-la. Deve-se aumentar os índices de produtividade, que no caso da pecuária são baixos. Também é preciso zonear e já existe uma política de zoneamento.
O problema é que existem na Amazônia terras não regularizadas que são invadidas. Isso abre espaço para a pecuária ilegal. Não se pode comprar carne ou soja que você não sabe de onde vem.
Quais são os caminhos indicados para aumentar a reciclagem de resíduos sólidos, uma vez que hoje só 6% do que é descartado são reaproveitados no País?
Primeiramente é preciso implantar efetivamente a política nacional de resíduos sólidos. A lei ficou parada 19 anos na Câmara dos Deputados e agora foi aprovada e está no Senado. A partir daí, os resíduos serão responsabilidade de todos e não será exigido apenas que os governos criem uma área de depósito de lixo sustentável. É um processo educativo, que vai tirar a gente da Idade Média e trazer para o século XXI.
Aumentar o rigor das penas dos crimes ambientais pode inibir a ação de desmatadores ou de quem destrói a natureza?
As penas já têm o rigor adequado. O que se pode fazer é, em caso de reincidência, não aceitar nenhum acordo, obrigando a pessoa a responder o processo até o fim. Dessa forma, o indivíduo tem mais responsabilidade e acompanha o processo até o final. Além da punição, eu acho importante premiar quem respeita a lei.
Em qual estágio encontra-se o Brasil no ranking da compensação da emissão de gases do efeito estufa?
O País hoje é o quinto maior emissor de gases do efeito estufa no mundo. Cerca de 70% disso é resultado de queima de floresta. O Brasil tem uma matriz energética limpa e tem todas as condições de evitar essa queima. As pessoas têm que entender que as florestas são grande ativo de diferenciação do País. Nós somos uma grande potência ambiental.
Hoje as pessoas destroem a biodiversidade por incompetência e ignorância. Muita gente trata a floresta como se ela tivesse que ser eliminada. Os brasileiros olham para isso de uma forma vergonhosa. O Brasil não gosta de se imaginar como dono de uma floresta tão grande porque isso dá a impressão de atraso. Muitos pensam que o ideal é que ela seja transformada em área de produção.
O Brasil tem um discurso contraditório. De um lado aparece como uma liderança que quer reduzir emissões e controlar o desmatamento e do outro quer flexibilizar leis para poder desmatar mais.
Relatório divulgado pela ONU aponta que logo vamos nos deparar com o desaparecimento de florestas, a proliferação de algas em rios e a morte generalizada de corais. Como chegamos a esse ponto?
A situação é gravíssima. Chegamos a esse ponto porque a população aumentou de forma insustentável e a demanda por alimentos é brutal. Se nós consumirmos como um americano vamos precisar de cinco planetas. Se continuarmos a destruir a biodiversidade, a primeira coisa que será afetada é a produção de alimentos, que será cada vez mais cara e artificial. Os próximos 40 anos serão muito difíceis para o equilíbrio ambiental do planeta.
Chegamos a essas conclusões porque estamos sendo alertados pelas mudanças climáticas. Estamos diante de um desafio terrível. A nossa vida daqui para frente será mais arriscada, mais cara e mais pobre.
Serviço
O 3º Congresso Nacional de Responsabilidade Socioambiental acontece hoje e amanhã no Parque de Exposições Ney Braga. Inscrições no local. O valor varia de R$ 50,00 e R$ 150,00. Informações pelo (43) 3025-5223 ou [email protected]

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