Não se tem lembrança de que em eleições anteriores tenha sido tão renhido o pleito - que hoje se fere - para escolha do presidente da Câmara Federal. E se não houve consenso de lançar um candidato único que servisse aos gostos do Palácio do Planalto é porque algo falhou no esquema de divisão de cargos nos altos escalões - ministérios e estatais, sobretudo. E assim um racha ocorreu no próprio âmbito do sistema, sem entendimento para uma candidatura única e não bipartida, porque tanto Aldo Rebelo (PCdoB-SP) como Arlindo Chinaglia (PT-SP) são governistas.
Essa dissonância dentro do próprio círculo deu ensejo à entrada do paranaense Gustavo Fruet (PSDB) no páreo, gerando uma terceira opção e uma aparente moralização da campanha. Porque até então, em total falta de decoro perante a opinião pública, os dois candidatos só se ocuparam do discurso corporativista, ou seja, distribuir promessas de vantagens aos companheiros em troca do voto. Nada voltado para os interesses maiores da nação. Agora, com a presença da candidatura de Fruet, a disputa extrapolou o ambiente da própria Casa e ganhou alcance nacional, porque a nova opção despertou lideranças do PSDB, que passaram a buscar votos (e sem ter em mãos uma caixa de oferendas), acenando ademais com a possibilidade de um segundo turno. Rebelo e Chinaglia tiveram de mudar o discurso e de repente foram forçados a elaborar uma agenda emergencial de propostas de interesse público - porque Fruet lançou-se fazendo as suas, mostrando que a escolha do presidente da Casa era mais relevante do que supunham os outros dois.
Verdade que as propostas dos dois governistas não passam de fragmentos de intenções de reformas já tanto mencionadas, como a tributária e a política, a independência da Casa ante as intervenções do Palácio do Planalto e outras proposições vagas - porque não nominadas - no sentido de debater questões nacionais. Tudo apenas discurso, porque nos bastidores as atenções estão voltadas para o interesse maior deles, que é ocupar a presidência da Câmara e, a partir daí, manipular os cordéis com mais desenvoltura. A apregoada independência não passa de frase de efeito, porque se for Rebelo o reeleito, ele continuará sendo o companheiro chegado do presidente Lula e não mudará essa postura. E se for Chinaglia, este é petista, portanto do Governo no poder. Nada a comentar. Foi ele que, sem a menor desfaçatez, iniciou sua campanha anunciando melhorias de ganhos para a companheirada. Rebelo não ficou atrás, porque autorizou, no ano passado, o aumento em dobro (derrubado pelo STF) do salários dos deputados.
O jovem político paranaense fala da reconstrução da imagem do Parlamento, tão obscurecida pelos escândalos de corrupção, defende o voto aberto em todas as deliberações da Casa, também fala das reformas política e tributária e propõe que os ganhos dos parlamentes sejam compatíveis com a realidade nacional. Que não tem o fausto vigorante na esfera dos poderes. A eleição de Fruet é mais difícil - porque ele não tem oferecido moedas de troca aos pares e pertence ao hoje quase único partido de oposição ao Governo Lula - mas não é impossível. Ele - uma espécie de estranho no ninho - simboliza a integridade ante candidaturas comprometidas com o lado mais sombrio desse núcleo de poder.

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