''Eles leem e veem os livros e creem que se adaptar às mudanças será um ato heroico''. Não, o jornalista não assassinou as convenções ortográficas. A partir de janeiro de 2009, o Brasil passa a cumprir o que traz o ''Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa'', e a frase que abre o texto estará corretíssima.

Vão-se embora o circunflexo na terceira pessoa do plural, o acento agudo nos ditongos abertos 'ei' e 'oi', de paroxítonas, o trema, entre outros. Resta saber se os professores estariam preparados, e se os alunos vão saber incorporar as novas regras. Para a professora Sandra Arcuri, tudo é uma questão de tempo e paciência. ''É hora de afrouxar a corda e trabalharmos juntos'', ressalta.

Os professores estão preparados para as mudanças ortográficas na língua portuguesa?
Na realidade, os professores ainda estão numa busca bastante individual de tudo aquilo que possa ocorrer no futuro. Não há um preparo efetivo de todos nós até agora. Entretanto, como gostamos da língua - porque fazemos isso por opção - todos buscam, através de estudos e da leitura de gramáticos que já haviam orientado anteriormente sobre as mudanças, se interar como as coisas vão ocorrer e como devem proceder.

Mudar é difícil até para quem ensina?
Mudar é muito difícil. Penso, pessoalmente, que sofrerei todas as vezes que escrever cinquenta e não utilizar o trema. Gosto de acentuar, sou daquelas pessoas que crêem que todos os desenhos dentro da grafia colaboram para um entendimento maior. Mas, antes disso, reconheço que muito mais que nós, Portugal cedeu imensamente rumo a uma unificação. Estudei lá algumas vezes e sinto que os portugueses se ufanam verdadeiramente da sua língua, então provavelmente por mecanismos políticos que desconheço isso possa facilitar imensamente a comunicação futura e muitos processos de mercado, de edição de livros e de uma série de situações.

Em Portugal as palavras terão 1,6% de sua escrita alterada. No Brasil, 0,45% ... Vamos nos aproximar, através da escrita?
Tenho certeza que vai ocorrer uma proximidade e inclusive acredito que a indústria gráfica, isto é, as editoras brasileiras, serão beneficiadas, porque hoje muito do que eles utilizam é de origem brasileira. A partir do momento que eles tenham uma possibilidade de aproximação mais latente, permissiva ao contato, vamos nos conectar ainda mais. Quem abriu esse caminho para que os portugueses hoje aceitassem nossa cultura sem o menor preconceito, pasmem, foram as novelas. Canais como a RTP e a CIC trouxeram muitas das novelas produzidas pela Globo e Record com uma diferença de 15 capítulos. Com isso, os portugueses absorveram nossos costumes e nosso linguajar.

O ''Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa'', proposto em 1990, entra em vigor cedo ou tarde demais?
Já não era sem tempo. Um exemplo: como ensinar a uma criança que quilo é representado por kg se no alfabeto não existe a letra k? Isso criava um impasse no aprendizado. Em 1972, quando comecei meu processo de alfabetização, houve uma reforma da acentuação gráfica e essa reforma foi muito difícil para nós que éramos estudantes, mas aprendemos com alguma dificuldade a utilizar a nova fórmula. Vejo, ainda hoje, minha mãe escrevendo Ribeirão Preto com acento circunflexo e ela é estudada. Talvez seja mais difícil para as gerações mais antigas, o pessoal mais velho, modificar. As crianças vão sofrer, mas vão aprender.

Não seria um ato heróico ensinar as crianças a aprender algo em tempos em que o internetês domina os vocabulários?
Vai dar trabalho, se bem que no que tange à acentuação eles já são tão pouco cuidadosos depois da internet. Não que eu que condene a internet em si. Lá, o internetês é bastante válido, mas hoje eles são tão acanhados na hora de acentuar, colocar o trema e demais regras, que acredito que vão sofrer, mas vai ser um processo bom.

E as crianças, como vão reagir?
É preciso afrouxar a corda, aceitar os erros e trazer a conscientização, num primeiro momento. Se o aluno errou, interessante é mostrar onde e os porquês do erro. A edificação nasce exatamente da reconstrução, como essa proposta.

O que muda?
- As paroxítonas terminadas em ''o'' duplo não terão mais acento circunflexo. ''Abençoo'', ''enjoo'' e ''voo'' são exemplo.

- K, w e y ingressam no alfabeto, que passa a ser de 26 letras

- Extinção do trema

- Fim do acento agudo nos ditongos abertos ''ei'' e ''oi'' de palavras paroxítonas, como ''assembléia'', ''heróica'' e ''idéia''

- O acento agudo não diferencia mais ''pára'' (verbo) de ''para'' (preposição)

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