Preocupações em que poucos acreditam
O escândalo ''de plantão'' no momento é o que resultou na Operação Navalha, e a cada vez que um deles acontece, são anunciados dentro do próprio círculo oficial movimentos de moralização, com ressonância também em entidades fortes, marcadamente a Ordem dos Advogados do Brasil. Quarta-feira, 19 líderes partidários da Câmara Federal, capitaneados pelo presidente da Casa, decidiram lançar campanha de combate à corrupção, com o objetivo de diminuir o desgaste político das instituições.
Uma tal manifestação seria festejada se não fosse apenas mais uma e que, sabidamente, não resultará em nada. Assim não fosse, as inúmeras Comissões Parlamentares de Inquérito já teriam implantado a moralidade no âmbito do Congresso Nacional e do Governo. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, declarou o óbvio: ''Ninguém mais suporta esse processo recorrente de corrupção''. Não se crê nessa de que os parlamentares não suportem, porque quase nada fazem. Nem os partidos reagem, porque gente denunciada acabou obtendo a chancela partidária, candidatou-se e voltou ao poder. Com o beneplácito do eleitorado, é bem verdade.
Nessa reunião de lideranças não faltaram promessas de enfrentar o corporativismo da Casa, os lobbies e os interesses escusos de parlamentares, mas não foram anunciadas medidas para isso acontecer, como eventuais mudanças de leis e regimentos. O deputado petebista José Múcio disse que ''se algo não for feito com muita coragem, acaba o mandato parlamentar''. O mandato não irá acabar, a menos que ocorra mudança para um regime ditatorial, mas é certo que a credibilidade nos homens públicos deste país já não existe.
O presente escândalo envolve destacadas figuras públicas, e o imediatamente anterior (alguém se lembra?) execrou figuras proeminentes do Poder Judiciário. Se com vontade política já seria difícil combater esse cancro - embora não impossível - imagine-se quando não há! Porque em sã consciência nenhum cidadão crê que haja propósito, na esfera oficial, de impor barreiras à continuidade dos favorecimentos, porque são muitos ali os que se locupletam.
Se houvesse real propósito, os congressistas - que têm todo o poder nas mãos, pois podem criar e mudar leis - e os demais Poderes terão de obedecê-las - já teriam aprovado normas rígidas e punidoras, mas o que fazem são apenas CPIs e não mudanças reais. Se a lei das licitações para obras e serviços públicos propiciam tanta possibilidade de roubalheiras, será preciso mudá-la e estudar meios mais seguros para o manuseio do dinheiro público.
Escândalo como o do caso Gautama (o da Operação Navalha) é apenas mais um do gênero, e não será o último se o sistema continuar tão facilitador. Anunciou-se na reunião desse grupo parlamentar que ''é preciso pôr fim ao sentimento de impunidade'', mas isto só acontecerá pelo endurecimento das leis pertinentes, sem tanta elasticidade que permita imunidades e as procrastinações. Quem pode fazer isso é mais ninguém senão os legisladores - que são os integrantes das duas Casas do Congresso. Se os escândalos causam grande estrago financeiro e moral, que ao menos se tire proveito deles para uma revolução de mudanças. Ou tudo continuará apenas em discurso para ludibriar o povo.





