Preocupação comum
O Brasil, que raramente é citado pela grande imprensa norte-americana, foi alvo de comentários na semana passada sobre o déficit público, que como todos sabem continua elevado. As observações manifestam preocupação inclusive com o processo de estabilidade econômica, que consideram ameaçado pela situação atual.
Não seria preciso que jornais estrangeiros comentassem a questão para que se soubesse como, de fato, ela é séria. Entretanto, o que ressalta aí é precisamente a percepção de que o Brasil precisa adotar medidas mais sérias para enfrentar este que sempre foi o maior desafio de qualquer projeto destinado a regulamentar sua própria economia. Sem que se resolva o déficit público, tudo o mais corre perigo.
Os numerosos projetos econômicos anteriormente tentados derraparam, entre outras coisas, nesta dificuldade. Na realidade, a grande inflação brasileira, que foi tomando vulto a partir dos anos 70, atingindo índices catastróficos nesta década de 90, tinha como um dos grandes componentes a indexação, criada para produzir uma espécie de convivência da inflação com o crescimento, mas que se revelou um tipo de mal em si mesmo. Todos os planos econômicos mostraram aparente sucesso no começo precisamente porque havia desindexação rápida. Mas como não se aprofundava na tentativa de resolver o problema econômico, a inflação voltava, cada vez pior.
O Plano Real, muito melhor estruturado, produziu efeitos positivos e mais duradouros. Todavia, não há como deixar de perceber que a falta da implementação do programa, com a realização de reformas capazes de acabar com o déficit público, coloca em risco tudo o que foi conquistado. Até agora, o governo federal ainda consegue equilibrar suas contas graças ao FEF. Mas isto não tem evitado crescimento no déficit público, ao mesmo tempo em que a falta de medidas profundas para modificar a estrutura do Estado deixa em aberto situação potencialmente perigosa.
Não é a preocupação de jornalistas norte-americanos, naturalmente, que deve motivar os brasileiros. O que ressalta aí, porém, é observar que a gravidade deste problema desperta preocupações além-fronteiras. E isso interessa muito mais aos brasileiros, que têm muito a perder se todo o esforço já feito, ao longo destes anos, for perdido. Não há como deixar de insistir na premência de atitudes firmes, notadamente por parte dos governantes, para que se implementem medidas concretas visando atingir os objetivos da proposta inicial do atual plano de estabilização.
Neste começo de semana, após a realização do segundo turno, já se anuncia a presença de parlamentares em Brasília, o que permite uma retomada nas esperanças de que, finalmente, o Congresso resolva aproveitar o tempo, adiantando o seu serviço. O mandato dos parlamentares eleitos em 94 está para chegar à metade, o mesmo ocorrendo com o do presidente da República. E o que foi feito até agora, principalmente na implementação do projeto de estabilização, lançado um ano antes das eleições federais, foi muito pouco.
Apesar de tudo, e nisto reside, sem dúvida, o grande valor deste programa, há resultados excepcionais. O ministro Pedro Malan antecipa que a inflação este ano deve ficar pouco acima dos 10%. Em 97, pode cair mais. O povo brasileiro assumiu sua parte e, hoje, tem consciência de quanto é melhor viver sob economia quase estável. É vital, porém, que os responsáveis pelas medidas complementares ao plano percebam que estão pondo em risco tudo o que foi conquistado. E que façam, rapidamente, o que não realizaram até agora.





