Predomínio da competição gerando violência
Em rápidas pinceladas não se pode fazer uma avaliação profunda e segura sobre a violência de alunos nas escolas - tema abordado ontem neste Jornal - e mesmo os mais aprofundados estudos não chegaram a um resultado conclusivo sobre as razões da agressividade imperante em quase todos os segmentos da sociedade. Mas pode-se assegurar que o predomínio da competição obstinada é um forte gerador de violência. A brutalidade de certos estudantes com os professores é ainda o menos relevante dos males, embora mereça atenção e remeta - conforme a pedagoga Marli Fávaro - principalmente para a irresponsabilidade dos pais, que ''despejam'' o filho na escola e imaginam que só isto basta.
A verdade é que o estudante não gosta da escola, porque algo também deve estar errado nela. Ontem a FOLHA mostrou, em outra reportagem, que alunos que precisam levantar muito cedo para ir à escola dormem em classe. Propor que as escolas comecem as aulas mais tarde pode parecer absurdo, mas no atual regime de horário os alunos aproveitam mal o ensino. Então, começar cedo demais resulta em inutilidade. As crianças, que são as que precisam dormir mais, são as mais sofredoras. Os dirigentes escolares não levam isso em conta.
Ademais, sabem todos - e alguns destacados especialistas em educação já declararam isso - que grande parte do currículo escolar é uma chatice, porque de relativo proveito, e isso associado à inabilidade de certos mestres para ensinar leva o aluno ao estresse. Esta não é a única razão, porque alguns estudantes têm problemas psiquiátricos, outros se drogam e outros são violentos por índole. Certo é que a escola precisa ser mais agradável. Não é uma questão que se resolve facilmente, e os pais também não têm grande poder sobre os filhos, porque os problemas da juventude hoje têm origem externa: más companhias, drogas, internet com forte ingrediente desagregador e o mau exemplo dos adultos corrompidos.
Se olharmos ao redor constataremos que quem produz e comercializa as drogas são os adultos; que muito do conteúdo da TV é violento, assim como os games; que políticos e governantes, em sua maior parte, são corruptos e isso é agressão à sociedade; que igualmente arbitrária é a polícia; que o sistema financeiro é violentíssimo e por isso desestabilizador; que a burocracia oficial tem forte dose de agressividade; que as disputas esportivas são uma guerra e certas torcidas beiram o banditismo. E mais: que religiões competem entre si e levam os fiéis à mesma prática, o que caracteriza fanatismo e indução a rivalidades; que há um gritante desnível de ganho entre as classes trabalhadoras; que as distintas classes sociais revelam sutil confronto entre si, e isto é também violência.
Todas essas questões precisam ser tratadas isoladamente, mas em tudo há um encadeamento, uma coisa puxando a outra e gerando uma quase incontrolável reação em cadeia, que se nutre de si mesma. Que cada cidadão reexamine seu próprio comportamento individual. A solução pode começar por aí.





