Predadores por excelência
Padre Roque Zimmermann
Cada vez mais me convenço que a história possui um fio condutor a alinhavar os períodos e as épocas, configurando-lhes características comuns. Embora existam diferenças entre os momentos históricos e pré-históricos, em razão da evolução tecnológica e mesmo da essência dos diferentes seres que habitaram e habitam o Planeta, no que concerne à luta pela sobrevivência, o comportamento de todos eles persiste.
Essa luta assume faces diferentes, mas, no fundo, é um traço comum a todos os seres vivos. Entre os irracionais, o instinto puro os leva à busca de alimentos e à defesa contra os inimigos. Os seres considerados mais evoluídos, equipados com inteligência racional, também lutam para sobreviver. E, por causa dessa inteligência, em tese, desenvolveram, em seu ambiente histórico natural, condições mais apropriadas para garantirem e facilitarem a continuidade de suas vidas.
O homem, inegavelmente, ocupou e ocupa o centro da atividade transformadora pela manutenção da vida. É bom que se diga, da vida dele (homem). Embora dotado de inteligência, esta tem sido usada, paradoxalmente, de uma forma irresponsável e irracional, cuja preocupação exclusiva nem chega a ser o atual momento histórico, mas, o dia, ou, no máximo, os próximos dias de vida.
A inteligência humana, quando privada de postura ética ante a natureza, leva o mundo a um estágio de degradação sem precedentes. Estágio este só comparado à grande catástrofe jurássica.
Mesmo dura, esta reflexão precisa ser feita. Caso contrário estaremos negando nossa própria condição de seres dotados de inteligência, se incapazes de entender a gravidade do momento.
Os sérios problemas enfrentados no Planeta são oriundos de atividades humanas, em geral, feitas mais em função da ganância do que da sobrevivência. Poluição das águas, desequilíbrios na ecologia, extinção de milhares de espécies vivas, enfim, a degradação do meio ambiente em escala cósmica faz do homem o predador por excelência.
Mas o processo predatório não pára por aí. Ele avança no próprio ambiente humano, onde o poder e a dominação assumem características irracionais e realizam a negação do ser humano. Quem possui o poder, nas suas formas mais diversas, acha-se numa situação privilegiada, e se julga autorizado a exercê-lo em benefício próprio e com autoridade de relegar seus semelhantes à mais hedionda degradação. A inteligência humana, com muita frequência, é usada para dissimular os atos praticados e dar aparência de probidade a quem, como a hiena, vive da miséria alheia.
Ainda nos últimos dias, a imprensa divulgou o rapto de crianças e (é de pasmar) a compra de crianças pobres por R$ 500 no Nordeste brasileiro. Não é mais segredo a ninguém que o destino da maioria dessas crianças é o sacrifício e seus órgãos são utilizados para transplantes. Na região dos Campos Gerais, no Paraná, meninas são traficadas para a prostituição nas praias catarinenses a R$ 50 a cabeça, conforme noticiou um jornal de Ponta Grossa. Da mesma forma, não é menos deplorável a imensa e terrível malha internacional do tráfico de drogas. Tanto são explorados os miseráveis sem emprego e qualificação, obrigados a entrarem como ‘‘puxadores’’ para terem um meio de sobrevivência, como também, os consumidores, literalmente assassinados aos poucos, tanto eles como suas famílias.
E assim, seria possível passar muito tempo enumerando uma infinidade de delitos praticados pelos seres humanos inteligentes (!), cujo alvo principal de exploração é o próprio semelhante. Se é deplorável o que o homem faz com a natureza, quer dizer, então, de sua atitude com um outro ser humano?
Entendo que o atual sistema político, econômico e social – centrado no individualismo e na competição – é um estímulo constante ao desrespeito ao semelhante. Mesmo com uma estrutura exemplar de controle social, com justiça e polícia modelos, por exemplo, sempre existirá um ‘‘jeitinho’’ para a fraude. Pois ser melhor ou mais esperto que o outro é uma condição inerente ao atual sistema. E sempre ficará mais difícil discernir o lobo da ovelha.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal pelo PT-PR

mockup