PRECONCEITO FECHA PORTAS
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sábado, 12 de outubro de 2002
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
Uma das maiores preocupações do Patronato Penitenciário de Londrina, órgão ligado à Secretaria Estadual de Segurança Pública que presta assistência a ex-detentos, é a dificuldade que egressos do regime fechado têm para conseguir emprego quando deixam a cela.
O último levantamento realizado pelo Patronato junto aos cerca de 400 ex-presidiários atendidos pelo órgão em abril, aponta que entre os 218 egressos que cumpriram penas em presídios apenas 23,61% estão empregados. Os desempregados estão em 55,56% e 20,83% exercem atividades informais, já como alternativa à falta de emprego com carteira assinada (lei texto nesta página).
Segundo Tadeu José Migoto, diretor do Patronato, os egressos pagam o preço pela reinserção bruta, após meses ou anos de cumprimento de pena, num mercado cada vez mais dinâmico e, lógico, permeado por preconceitos. ''Essa alta taxa de desemprego está ligada a dois fatores principais: a falta de qualificação do ex-detento e a desconfiança natural dos empregadores'', afirma.
De fato, o último levantamento indica que, dos egressos, uma esmagadora maioria, 83,33%, não chegou a completar o 2º grau. ''No acompanhamento dos presos e das suas famílias, frisamos a importância do estudo. Atualmente, a cada três dias de estudo ou trabalho na prisão, um dia da pena é remido. Mas o problema é que são poucos os que buscam alguma qualificação'', explica Ângela Marion de Quintal Vasconcellos, chefe da divisão de assistência social do Patronato. ''Não adianta nada nós batermos na porta dos empresários para oferecer empregados sem qualidade. Os próprios presos têm que desenvolver essa consciência.''
Este ano, o Patronato Penitenciário de Londrina tem distribuído material de divulgação em empresas para estimular a contratação de egressos do sistema penitenciário. Segundo Tadeu Migoto, a reinserção remedia o crime e interessa a toda a sociedade. ''Atualmente, a reincidência entre egressos do sistema fechado é de 80% em todo o Brasil. Os ex-detentos voltam a cometer crimes por dois motivos principais: a chamada 'contaminação', quando o preso é detido por um delito não tão grave, mas aprende a ser perigoso de verdade no contato com outros criminosos; e o desespero pela dificuldade em se conseguir emprego, que pode acarretar a volta ao crime.''
Na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), a reincidência para egressos do regime fechado é de 10%. Para penas em regime aberto, que denotam menor periculosidade e são destinadas a crimes menos graves, apenas 5% dos apenados voltam à deliquência. ''A diferença é que estas pessoas não têm suas vidas interrompidas, não perdem o emprego, estão em liberdade'', afirma Ângela.
Édson Faculdo, 39 anos, não conseguiu emprego com carteira assinada desde que deixou a prisão, há sete anos. ''Voltei ao crime, cheguei a ser detido pela Polícia, entrei em desespero. Se não tivesse encontrado uma ocupação na Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), tenho certeza de que hoje estaria preso ou morto'', afirma.
E.R., em liberdade há um ano e três meses após cumprir um ano por estelionato, afirma que passou um mês procurando emprego antes de decidir trabalhar por conta própria como montador autônomo. Ele chegou a completar o 2º grau, o que o coloca alguns degraus acima na busca pelo emprego em comparação a outros ex-presidiários. Seu algoz foi o preconceito.
''Vivemos numa sociedade injusta, onde ninguém acredita que alguém pode se regenerar. Não me apresento a ninguém como ex-presidiário. Meu desespero por não conseguir emprego era tamanho que cheguei a pensar em bobagem muitas vezes. Mas tenho esposa e quatro filhos, estava cansado de vê-los sem o chefe da família, passando dificuldade'', afirma.
L. é uma exceção. Ela passou três anos e meio detida, em presídios de Londrina e Curitiba, por tráfico. Na prisão, estudou, fez cursos profissionalizantes e trabalhou. Conta que, quando recebeu a liberdade, em outubro de 2001, já tinha emprego garantido. ''Enquanto estava presa, trabalhei para uma empresa de Curitiba. Gostaram tanto do meu serviço que, quando saí, me ofereceram uma vaga. Mas eu tenho quatro filhas em Londrina e decidi voltar pra cidade.''
De volta, L. teve novamente sorte. Já em novembro, conseguiu emprego como cozinheira. Inicialmente auxiliar, foi promovida este ano a chefe de cozinha. ''Logo que fui contratada, tive que dizer a meu patrão que era ex-presidiária. Ele ficou desconfiado, mas decidiu arriscar e gostou. Foi o primeiro lugar em que procurei emprego desde que saí'', explica. L. está consciente de que é uma exceção. ''Os empresários precisam saber que tem muita gente capacitada lá dentro, que se regenerou e pode trabalhar com competência.'' Como lembra Tadeu Migoto: ''A sociedade precisa se lembrar da frase: Estou contido, amanhã estarei contigo''.


