PRECONCEITO - Racismo também é histórico no futebol
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Paula Costa Bonini<BR>Reportagem Local 
O racismo acompanha a trajetória do futebol brasileiro. Casos de jogadores negros que sofreram ofensas da torcida ou que foram insultados dentro de campo por outros atletas não são raros. O caso mais emblemático, no entanto, ocorreu há 60 anos. O goleiro Barbosa falhou no segundo gol uruguaio na derrota brasileira na final da Copa de 1950. O espisódio ficou conhecido como Maracanazzo e ele carregou para o túmulo a culpa pelo maior fracasso da história da seleção.
Para o pesquisador e professor universitário Carlos Alberto Figueiredo da Silva, autor do livro ''Racismo no Futebol'', a responsabilização por fracasos é sempre mais pesada para os atletas negros. Ele compara a falha de Barbosa ao pênalti perdido por Zico contra a França nas quartas-de-final da Copa de 86, que custou a eliminação da equipe no México.
''Na ocasião em que o Zico foi culpado pela derrota do time devido ao pênalti que perdeu houve um ataque não a pessoa do Zico, mas à falta de preparo dele. Quando o jogador é negro, as metáforas são outras, como ''amarelão'', covarde. Esse tipo de palavra ofende a pessoa e não o atleta'', afirma o pesquisador.
O ambiente do futebol no Brasil é racista?
É um racismo meio velado. Temos vários episódios que mostram um racismo explícito, mas há sistemas camuflados, sutis. Eu desenvolvi um estudo que mostra que as metáforas voltadas para o jogador negro atacam a pessoa enquanto as que são dirigidas ao jogador branco atacam o atleta. Na ocasião em que o Zico foi culpado pela derrota do time devido ao pênalti que perdeu houve um ataque não à pessoa do Zico, mas à falta de preparo dele. Quando o jogador é negro, as metáforas são outras, como ''amarelão'', covarde. Esse tipo de palavra ofende a pessoa e não o atleta.
O senhor também constatou que o mercado de treinadores negros no Brasil é escasso.
Exatamente. As posições de comando são ocupadas na grande maioria das vezes por treinadores brancos. Por exemplo, o Andrade, do Flamengo, durante muitos anos entrava para substituir um treinador e ficava só um pouco, até que ele se firmou. Mas demorou demais para isso acontecer. A pequena quantidade de negros em posição de comando chama a atenção. Há um sistema que dificulta o acesso. Acredito que essa situação será revertida, mas está demorando muito. O Dunga nunca foi treinador e de repente virou técnico da seleção. Será que um negro teria essa oportunidade?
Isso não é reflexo de uma sociedade racista?
As pessoas têm dificuldade para lidar com diferenças e gostam da padronização. Há uma ideia de unicidade e não de diversidade. É uma forma de manter as estruturas dominantes. Isso não é um problema só do Brasil, é mundial.
É possível combater o racismo no esporte?
A Fifa já tem previsão legal para as questões raciais. Mas casos que poderiam ser tipificados como racismo são classificados como injúria, cuja pena é mais branda. Uma pessoa que vai ao futebol e comete um delito deve ser afastada do campo. É uma atitude que deve ser estimulada e já é comum na Europa.
Por que o racismo persiste no País, uma vez que a legislação prevê até pena de prisão para quem discriminar por conta da cor da pele?
Nós evoluímos muito nesse quesito. Houve uma conscientização muito grande nos últimos dez anos e hoje existe uma cidadania forte por parte dos grupos excluídos, que pressionam para que determinadas ações sejam tomadas no campo do Legislativo. Os movimentos negros avançaram e isso gera uma série de oposições, o que é natural.
Um exemplo emblemático de preconceito é a culpa carregada pelo goleiro Barbosa pela derrota na Copa de 1950. Até que ponto esse episódio contribuiu para a consolidação do racismo no meio esportivo?
Antes desse episódio o racismo já estava presente no esporte. O futebol chegou ao Brasil por meio de um grupo da classe dominante. No início, o futebol era restrito às elites e aos poucos foi sendo popularizado. Os jogadores negros tinham muita dificuldade para participar das equipes. Em meados de 1910, os times normalmente eram formados por pessoas brancas.
O caso do Barbosa foi muito marcante porque houve uma derrota em Copa do Mundo, no Maracanã. A seleção perdeu por causa de uma falha, um ''frango'' do Barbosa. Com isso, começaram a utilizar metáforas, dizendo que ele tinha se acovardado. Essa imagem ficou vinculada à função do goleiro como um todo. E somente na Copa de 2006 o Dida quebrou o jejum de goleiros negros.
Qual é a sua avaliação sobre o episódio que envolveu o atacante Grafite e o zagueiro argentino Desábato, que em 2005 foram parar na delegacia devido a supostas ofensas racistas contra o então jogador do São Paulo?
O episódio foi emblemático porque foi a primeira vez que um jogador negro levou o caso para a esfera jurídica. A repercussão foi incrível. A coisa é tão complexa que esse caso foi se ''arrastando'' e a mídia parou de falar sobre isso. Depois, em uma outra situação envolvendo o Grafite, em um jogo da seleção, a própria torcida brasileira levou cartazes com banana para insinuar que ele era macaco. Isso mostra o quanto o racismo está realmente presente em nossa sociedade e no esporte.


