Precocidade do erotismo infantil
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 2003
Moacir Costa 
A programação da televisão tem apelado para a excessiva valorização do corpo e do erotismo; inclusive em programas infantis onde se percebe que a preocupação maior é valorizar gestos e posturas sensuais. Além disso, transmitem uma imagem caricatural da mulher, aquele tipo ''boazuda''. O resultado são as imagens estereotipadas, onde a mulher ressurge como um objeto de consumo ou de apelo sexual. Resultado disso é que a criança começa a incorporar uma atitude abertamente sedutora, lembrando o comportamento adulto. Ela perde muito da sua espontaneidade e naturalidade, e principalmente de sua ingenuidade.
Os pais demonstram desde cedo uma preocupação, às vezes obsessiva, de que a filha se transforme em modelo ou atriz de novela, levando a se mostrar preocupada desde muito cedo em ter um corpo perfeito, vivendo em função de dietas e outras preocupações. Enfim, ela tem que fazer ou representar tudo o que um adulto faria, ou melhor, tudo aquilo que os pais gostariam de ter realizado, mas não conseguiram.
Tudo isso acaba interferindo no desenvolvimento emocional e afetivo da criança, fazendo com que ela pule etapas importantes do seu desenvolvimento. Uma criança que não vivencia a sua infância deixa de viver comportamentos próprios de sua idade. Para ela existe um mundo de atividades propriamente infantis, tais como as brincadeiras, os jogos, as leituras, o teatrinho e até filmes, que lidam com o seu mundinho, com as suas fantasias, com os seus sonhos, e que não entram em choque com a simplicidade e a beleza do universo infantil.
As crianças não podem e não devem ser jogadas num mundo de adultos, que é agressivo e competitivo, isso é psicologicamente prejudicial. Crianças não têm a malícia nem o desencanto dos adultos, assim como não têm uma sexualidade amadurecida ou já conflitiva. Portanto, não precisam imitar o comportamento típico dos marmanjos.
A televisão deixou de ter uma função educativa. Ela insiste nessa história de ficar criando falsas promessas ou fantasias de realização, e cabe aos pais evitar que seus filhos acreditem nisso. Eles devem mostrar que a vida oferece muito mais do que o sucesso, que existem inúmeras profissões e ofícios além daqueles de atriz, cantor ou jogador de futebol, que também são importantes e levam à intensa realização pessoal e social.
Cabe aos pais a tarefa de preservar os valores mais genuínos do ser humano, procurando sempre valorizar o amadurecimento emocional de seus filhos, colaborando para que desenvolvam uma atitude crítica em relação ao aprendizado e entretenimento que os meios de comunicação oferecem. A precocidade do erotismo infantil quebra o brilho e o encanto juvenil. A criança tem que ser respeitada e continuar a ser criança.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
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