Preço amargo do café
A cafeicultura brasileira é outra vez alvo de uma crise desesperadora, em consequência do mercado internacional. À vista grossa, a culpa seria do baixo preço do produto, isso sem considerar que o que se paga hoje pela saca do café é resultado direto de um erro que não está no campo, mas nos gabinetes dos tecnocratas que teriam a responsabilidade de planejar o setor.
A atual crise, na verdade, já tem longa duração. Conforme reportagem que este jornal publica hoje no suplemento Folha Rural, o aumento da produção cafeeira nos últimos três anos é que vem tornando o problema mais agudo, fazendo o preço ficar abaixo do mínimo histórico de US$ 48 a saca. Em linguagem direta, o preço de hoje está em cerca de US$ 30 a saca para os melhores tipos de bebida, para um custo de produção estimado entre US$ 50 e US$ 60,00 segundo os produtores.
A raiz do problema já foi mencionada: o aumento da produção. A reportagem do suplemento rural mostra que a produção mundial estimada é de 115 milhões de sacas, com o Brasil participando com 45 milhões desse total, quando o consumo não passa de 105 milhões. Informa-se também que os estoques mundiais, este ano, devem chegar a 20,4 milhões de sacas.
Oras, se não é de hoje que a relação entre a produção e o consumo da bebida apresenta desequilíbrio acentuado, por que a política cafeeira em vigor se assim podem ser consideradas algumas medidas emergenciais lançadas ao desespero ainda estimulam o aumento da produção? Mais grave ainda é que, sob o anúncio de planos para melhorar a qualidade do produto, planta-se mais, e nem sempre com tecnologia adequada para se ter um café em condições de disputar espaço nesse competitivo mercado internacional.
Essa preocupação é manifestada na reportagem pelo Centro de Comércio de Café do Norte do Paraná, através de sua presidência. Para a entidade, o consumo interno da bebida é baixo, ficando na faixa de apenas 13,5 milhões de sacas, agravando a dificuldade criada pela restrição do mercado externo. Assim, é descabido continuar produzindo descontroladamente.
Entretanto, pela ausência de políticas que controlem a produção não somente do café, mas de inúmeros outros produtos, o que se testemunha constantemente é o desespero do agricultor. Acontece agora com o café, como já aconteceu em passado recente e por inúmeras safras com a cenoura, o repolho, o leite, o frango e muito mais. Por falta de alternativas e de políticas que o direcionem, o produtor planta hoje o que foi bom ontem, sem se preocupar que outros também estão fazendo o mesmo. Na hora de vender o produto, o custo da colheita e do frete não compensa e esse agricultor não tem outra alternativa a não ser deixar apodrecer o produto no campo, ou engrossar os protestos jogando alimentos aos porcos em praças públicas.
É hora de um basta. A agricultura precisa de bons políticos.





