Precisamos é de bons prefeitos - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de outubro de 1998
Walmor Maccarini 
Ante o novo ajuste fiscal de FHC, os prefeitos paranaenses parecem apenas preocupados com a própria reeleição, daqui a dois anos, e não com a sorte dos seus munícipes. Isto ficou demonstrado na reunião dos coordenadores regionais da Associação dos Municípios do Paraná, terça-feira, em Curitiba. As reações (v. Folha de ontem) foram de que a crise terá que levá-los a repensar a reeleição.
Nenhum deles falou em repensar novas modalidades administrativas, que contemplem a comunidade sem grande dispêndio de verbas; nem falou em contenção de desperdícios e gastos supérfluos; nem em reduzir o quadro do funcionalismo e em azeitar a máquina burocrática emperrada.
Já dizia o duas vezes prefeito de Londrina, Milton Ribeiro de Menezes, que administração pública se faz 20% com dinheiro e 80% com vontade política.
O que falta aos prefeitos do Paraná, e de resto aos de todo o Brasil, incluindo-se também os governadores e o próprio governo federal, não é dinheiro, mas vontade política. Dinheiro tem de sobra, mas é sempre mal gerido. O dinheiro que os governantes tiveram sempre foi suficiente para o empreguismo, para gastos abusivos, desperdícios sem fim, desvios nunca explicados.
A farra com o dinheiro do povo sempre foi suntuosa.
Costuma-se dizer que quanto mais luxuoso o palácio governamental mais ignorantes os que o ocupam, e o que não falta no Brasil são belas sedes de governo, no âmbito dos três Poderes.
O que os prefeitos temem com a sua apregoada falta de dinheiro não é privarem o povo de benefícios, mas é não serem reeleitos agora e em eleições futuras. Quando os governantes dizem que falta dinheiro, subentenda-se que eles quiseram dizer que falta para os excessos. É quando o dinheiro escasseia para os excessos que eles começam a gritar. E os excessos são essas orgias como o volumoso quadro de funcionários - burocratas que, afora as áreas da saúde, da educação e alguns segmentos da segurança - mais atrapalham que contribuem.
A crise está feia e os prefeitos estão com poucas perspectivas de terem a reeleição garantida - ouviu-se lá na reunião de Curitiba, e saiu no jornal.
É, se não há garantia de reeleição, então a crise está feia mesmo!...
Primeiro, o governo federal já começa errado com esta nova sangria contra os cidadãos, quando quase toda a receita da República é canalizada para sustentar a gigantesca e inoperante engrenagem burocrática, mas nisto ninguém mexe. A não ser, quem sabe, despedir o office boy e a mulher do cafezinho, porque as grandes contenções de gastos começam neles. E encerram-se neles...
Então, os grandes rombos e as grandes mordomias, nem pensar. Estes vão continuar. Busca-se aumentar a angariação da receita não pelo cerco aos sonegadores e sim onerando ainda mais os bons pagadores. O povo pagando a conta duas vezes.
Neste Brasil, onde quase tudo ainda está por fazer, devia-se começar por criar escolas superiores de administração pública e colocar na Constituição que só os que saírem delas - e de preferência com pós-graduação - estarão aptos a pleitear um cargo governamental, desde o presidente da República, passando pelo ministro, pelo senador, pelo deputado, pelo governador, pelo secretário municipal, até o vereador; e exigir deles atestado de irrestrita honestidade e idoneidade moral. A maioria dos eleitos desconhece leis e sequer os mais elementares regimentos. Então, como confiar a coisa pública a pessoas tão inqualificadas?
E os prefeitos - que, apesar de seus desmandos e imprevidências, são na verdade os que seguram as pontas aqui nas bases, até porque em contato mais direto com o povo - que tratem de abandonar idéias de reeleição numa hora destas e reformulem suas estratégias administrativas. Que tratem de enxugar a folha de pagamentos, mas por favor não mexam no office boy e nem na mulher do cafezinho... De verificar custos antes de iniciar uma obra, para não se afundar em dívidas que irão dificultar a própria administração e a seguinte; que contenham a gastança com o supérfluo, com os gastos desnecessários.
E, sobretudo, não irem com sede ao pote... Que esta água não é para eles beberem...
Consciência, muita consciência, ante a responsabilidade da função, e com o dinheiro público. Muito cuidado com o dinheiro público!
Não é de mais dinheiro que as Prefeituras precisam, mas de bons prefeitos.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


