Precisam-se de oposicionistas - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de outubro de 1997
Joel Samways Neto 
Não fossem as oposições que a vida apresenta ao ser humano, talvez ele não tivesse descido das árvores. Ou talvez nem sequer tivesse subido nelas.
As necessidades, das mais básicas às mais sofisticadas, é que impeliram o processo civilizatório. Fome, frio, ignorância, desconforto, estão entre os itens que desafiam as potencialidades criativas da humanidade a superá-los. E aqui estamos nós nesta nave terrena, a esta altura dos acontecimentos, das criações, das invenções, das inovações e das descobertas.
Mudando o que deve ser mudado, esta leitura pode ser tranferida para o cenário político, onde as oposições têm um papel importante, muito parecido com o da natureza e suas contingências.
Feito tempestade, uma das oposições da natureza, a oposição política também fica mostrando frestas, rasgos, furos, por onde passa frio, vento, umidade.
A luta pelo poder faz com que grupos organizados em torno de determinadas idéias confrontem-se, debatam-se, apontando uns os defeitos - as frestas, os rasgos, os furos - dos outros. Quem está no exercício e posse do poder age vigiado de perto pelos oposicionistas. E como não existe ação política perfeita, integral, que agrade a todos, nunca falta matéria-prima para os críticos. Sempre haverá arestas, sempre haverá deficiências passíveis de serem exploradas por políticos adversários em seu trabalho de persuasão e proselitismo junto ao eleitorado.
De que adianta reclamar? A opção à existência desse embate situação-oposição é a ditadura, a opção ao pluralismo é o totalitarismo. A existência de oposição política tem a ver com a capacidade de escolha, a liberdade de escolha e o poder de escolha inerentes ao ser humano. Elementar, eu sei. Mas às vezes o que é elementar precisa ser evidenciado para não ser esquecido.
Oposição política existe porque as pessoas têm o direito de pensar diferentemente uma das outras. Nem todos são liberais, nem todos são socialistas, nem todos são social-democratas etc.. E como ninguém consegue propor uma doutrina, um sistema, que envolva plenamente a verdade, nenhuma dessas alternativas jamais conseguirá, sozinha, satisfazer a todas as necessidades da vida em sociedade. Assim, quando estiver no poder o grupo liberal em seu encalço estarão os grupos social-democratas, os socialistas, criticando as omissões do Estado em relação às questões ligadas à assitência social. E quando estiverem os socialistas no poder, será a vez de os liberais criticarem os excessos assistencialistas gerenciados pelo governo.
Os mais sábios, sejam do time dessa ou daquela ideologia política, são os que sabem somar as ações da situação às objeções da oposição.
Lamentavelmente, sabedoria é iguaria rara na política brasileira. Aqui, costuma-se jogar o jogo raso da política, dentro da regras da mentalidade coletiva medíocre. O melhor exemplo que me ocorre foi em 89, quando Fernando Collor venceu as eleições à Presidência da República. O PT, derrotado, ao invés de assumir com dignidade o importante papel de oposição, resolveu agir como criança embirrada; criou um tal governo paralelo, negando os mais rudimentares valores da democracia (a começar com o de que a maioria vence).
Interessante essa desvalorização nacional da oposição. Decorrência, decerto, do descompromisso que os políticos mantêm com os princípios do seu próprio caráter, primeiro, e com os princípios partidários depois. Eles parecem ter aversão a ficar do lado de fora dos palácios de governo. Como se a oposição não tivesse espaço nenhum no exercício do poder social, como se fosse um apêndice inútil na prática política.
Claro, oposição consciente, digna, requer talento, requer pesquisa, prontidão, conhecimento, combatividade, substância. E onde encontrar quadros assim qualificados? A precariedade dos homens públicos pode ser avaliada nas transferências de partido, ultimamente um verdadeiro arrastão. E os grupos situacionistas daí incham como se tomassem cortisona. E enraizam nos meios de comunicação de massa, e se associam às elites econômicas, e as políticas públicas vão ficando cada vez menos públicas. Enquanto isso, do outro lado do rio, a oposição míngua.
No Paraná, desgraçadamente, o pouco que resta da oposição se convulsa na retórica estabanada, boquirrota, inconsequente, do discurso requiônico - apesar disso, festejado como se fosse coisa de estadista. Que triste alternativa nos ameaça.
-Joel Samways Neto é escritor e procurador do Estado do Paraná


